Crónicas do tempo.
Ela tem uns vinte e três anos, dois garotinhos de uns cinco anos
e oito meses, parece feliz quando anda na rua e, ninguém diz
que é filha do povo!
Mas é preciso compreender que veio de outra cidadezita à volta
de Lyon, onde os pais tinham uma casa ainda por pagar e, foram
obrigados a vendê-la porque tendo muitos créditos pediram
socorro para reembolso junto do Banco de França e este nada fez,
senão obrigá-los a venderem a casa!
Ela tinha apenas douze anos e, para ajudar a mãe que esteve
doente com problemas neuróticos até faltou à escola, para se poder
ocupar da irmãzada ainda mais pequenos do que ela.
E foi assim que mudáram do sul para norte de Lyon, instalando-se
num HLM sem repéres alguns e, ela viu-se crescer mais do que
devia, confundindo a família a função da mãe e da filha.
Depois de ter repetido vários anos da escola primária, acabou por
entrar no colégio mas, os resultados nulos fizéram que se voltásse
para o trabalho muito cedo.
E foi então que se iniciou a sua vida de jovem, com namoriscos
de todos os estilos e de todas as idades, os pais consentindo
mesmo em deixá-los dormir em casa, porque era ela a ajudanta
principal das serventias familiares.
Então desde os treze anos aprendeu o que é o amor, navegando
no mar de mãos diversas, sem qualquer receio de caír numa tempestade, como há em todos os mares.
E como qualque barco ía de aventura em aventura, cabotando em
todos os portos e, assim aprendia a navegar com destreza.
O único problema era que a mãe a ajudava a fazer e desfazer as
relações e, deve ter sofrido –como naquele dia em que ela chorava
à janela, gritando para a mãe-: “oui tu m’appelles une pute, et tu
ne t’arrêteras jamais » !
Ao fim de uma dúzia de amantes acabou por encontrar um rapaz
pequenino como ela, que a engravidou e, acabou por se assentar
tornando-se mãe e mulher, como qualquer outra.
Desde aí deixou de trabalhar, afirmando-se ume “fada do lar” e,
para mostrar à mãe que ela conseguiu realizar-se o que a mãe não soube ou pôde fazê-lo, acaba por ír todos os dias almoçar com os garotos a casa dos pais, pois é-lhe impossível cortar o cordão
umbilical!
Contudo quando sai à rua, o corpo pequeno e miúdinho dão-lhe
ainda um ar de garotinha, sempre bem vestida e arranjada, apenas
com o pequeno salário do seu jovem marido.
Às vezes vejo-a entrar e saír com um “certo ar de starlette" e
digo-me: o que é que a moçoila traz na cabeça?!
Com aquele ar pedante de pessoa “de alta escala”, acaba por me
enervar um pouco. É!
Rosario Duarte da Costa
Copyright
31/01/2012
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