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Viagens precoces!
Voyages précoces!
Contava ela para eu ouvir, o dia em que fêz a sua primeira
viagemzinha
dentro da cidade.
“Foi assim. Tinha ido com os pais do Alentejo até Lisboa e,
ficaram em casa
de uma prima da mãe que residia na Praça da Alegria. Ficou
contente mas,
os pais partiram com os primos –já nem se lembra para onde- e,
ela ficou
sózinha no apartamento, com todas as recomendações
habituais.
Pôs-se então à janela, vendo pessoas a ir de um lado para o outro
sem saber
onde aquilo ía dar.
Depois de ter reflectido um pouquinho, pensou que poderia ir dar
um giro
com muito cuidado, regressando a casa antes dos pais
chegarem!
Achou boa a ideia. De toda a maneira, já tinha uns oito ou nove
anos e, não
se iria enganar...
Lavou a boca e as mãos, arranjou os caracóis “canudos” que a mãe
lhe tinha
feito nessa manhã, vestindo o casaco comprido amarelo outono com
gola de
veludo castanho e, pegando no chapéu que condizia com ele, meteu
o saco a tiracolo, abriu a porta, fechando-a com muito cuidado descendo as escadas
até chegar ao passeio em frente da Praça da
Alegria!
Em baixo, respirou profundamente. Olhou à volta, pôs os olhos nos
sapatos
pretos de verniz mas, um deles tinha uma mancha, tendo que
recorrer ao
lençinho que tinha na algibeira, para o limpar. Guardou depois o
lenço bem dobradinho na algibeira e, lá foi calcorreando todos os pavesados da cidade
como se fôsse descobrir o caminho marítimo para a
India!
O que era engraçado ver os grandes prédios com as janelas altas e
estreitinhas,
com as pessoas a conversarem às portas. E as lojas eram tantas,
com centenas
de coisas maravilhosas que ela ía descobrindo ali sózinha...Ai,
se a mãe visse
havia de lhe comprar tudo mas, ela não lhe poderia dizer senão
seria castigada
por ter saído para a rua sem autorização parental!
Andou, andou, parou, continuou e, já nem sabia bem donde tinha
vindo mas,
de toda a maneira alguém lhe poderia indicar onde ficava a Praça
da Alegria!
Às vezes ficava pasmada com alguns prédions altos e estreitos,
descalavrados
e sujos, pensando que não poderia ser assim a capital do seu
país!
Paráva, repartia, pensando e isto, até chegar por volta da Praça
Camões,
descendo depois para o Chiado e aí, arregalava os olhos, sem no
entanto poder
ver tudo!
É que era muita coisa: tantas vitrinas, tanta roupa, tantos
brinquedos que até
pensava que era já ali o Natal!
Parou. Abriu o saco, pegou no porta-moedas, contando o dinheiro
que tinha.
Ora bem, vinte escudos dava-lhe bem para comprar um bolinho mais
uma
chupeta! Ainda lhe sobraria dinheiro.
Foi assim, que ela entrou numa pastelaria para comprar o folhado
e a chupeta
que viu na vitrina, agradeçendo à empregada, repartiu rua abaixo
comendo
gulosamente!
ou Virandoàesquerda
Virando à direita, depois à esquerda, acabou por desencontrar-se do caminho
sem se inquietar muito...quando viu um grande portão, uma grande entrada
par
um sítio desconhecido, onde estava escrito em grandes letrsa
"Parque Mayer". Avançou até ali, pôs o pé na entrada mas, justamente nesse momento um
polícia perguntou-lhe: o que é que estás aqui a fazer?!
-Eu? Ando a passear. Não conheço ainda bem Lisboa!
Isto não é para ti-respondeu! Voltou-lhe a perguntar: Onde
moras?!
-No Alentejo senhor polícia...
No Alentejo?! E como é que viés-te até aqui?
-Com os meus
paizinhos senhor polícia! Estamos na Praça da Alegria. Eles
saíram com a prima e, eu vim rápidamente conhecer
Lisboa!
Ora bem, disse-lhe o polícia: vem comigo, vou levar-te a
casa!
E, foi aí que a garota começou a ter medo. Não do polícia , sim
dos pais caso
eles tivéssem chegado a casa!
E andou, andou a pé, acompanhada com o agente. Começou a
choramingar um
pouco por ter os pés doloridos, tinha quase vómitos ao
aproximar-se da casa!
Subindo as escadas lentamente, sentiu um medo estranho quando o
agente tocou
à campaínha e, a porta abriu-se com o pai, a mãe e a prima, todos
com olhos lacrimosos!
Correu para eles abraçando-os a pedir perdão!
Mas, viu fulminarem os olhos do pai, acesos como as velas em
noites festivas!
E, foi assim, que ela partiu para a cama sem jantar, com a voz
alta do pai que
parecia um tremor de terra, acabando por gritar: para a próxima
vez, não será
assim. Serão umas dúzias de nalgadas no rabo!
E, foi então que ela se deitou, choramingando adormeceu,
acordando no dia
seguinte com uma carga de culpabilidade!”
Ouvi a históriazita da garota de então. Ela findou a
dizer-me: E, foi assim,
que eu nunca mais
parti para as descobertas sem dar conhecimento
aos
meus pais!”.
Ainda bem, disse-lhe eu. Vê, naquele tempo existiam problemas
mas, as
crianças andavam mais resguardadas. Hoje, mesmo sem viagem muitas
crianças
desaparecem. Muitas, sem nunca mais aparecerem. Algumas
matam-nas!
Então, é preciso ainda mais vigilância do que antes. Até porque a
criança hoje
é mais madura do que no teu tempo!
Talvez, respondeu!
Rosario Duarte da Costa
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05/11/2010
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