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Sim...recordo-me do Dr.Macedo e Familia...
da casa onde eu entrava por vezes...
Tão perto e, tão longe!
Em Homenagem ao Querubim!
Quando eu era criança, o françês era para mim uma chinezada,
visto que naquela altura, nunca se havia pensado ensinar uma língua na
escola primária.
Sabia da existência de alguns países- como a China-, por ter
tido
oportunidade de ler livrinhos “em relevo”, recortados com
imagens
da China; por ter usado no verão daqueles chapéus –em bico-,
por
causa do sol na praia...
Conhecia a França, por ter lido alguns livrinhos de autores
françeses
traduzidos em português; por ter visto françeses em Vila Nova
de
Milfontes em particular na pensão desta cidade “antigamente
vila”
que era de uma prima da minha avó. Arranhava a língua com
o
“merci” ou “au revoir” que eu expremia com “merrrci” e “ ô
revar”,
pensando falar já, a língua de Voltaire.
Assim caminhei nos primeiros anos de vida, sem me aperceber
que
o françês era uma língua “viva”, muito literária e, que qualquer
autor
no mundo desejaria passar pela França para ser
reconhecido!
Não esqueçamos que a França antes de acolher a dita
“emigração”,
no século XX, há muitos séculos havia acolhido desde os
tempos
remotos, escritores e sábios portugueses.
Um dia porém, numa altura em que eu estava de férias de verão e
que
ainda a ida para a praia tardava, fui visitar ( como todos os
dias)
a minha avó Georgina e, de regresso a casa, dei uma
voltinha
-como sempre- pela avenida.
Desci até chegar à Bomba de Gasolina do Sr. Isidro (que era o
padrinho
do meu pai) e, um pouco mais abaixo havia uma loja à esquerda
com
um jovem sentado a ler um livro. Era o Querubim, um jovem
estudante
a quem eu perguntei logo o que ele lia...
Levantando o olhar para mim disse-me:não te posso explicar, és
muito
pequenina, estou a ler um livro em françês!
Fiquei pasmada! Em Françês? E, não me pode ensinar o
françês?!
- Disse-me logo: quando entrares no colégio aprenderas também o
françês!
Parti, numa correria doida até casa. Fui chorar para o quarto e, o rio
de
lágrimas deve ter alagado a casa porque a minha mãe chegou a
correr
dizendo-me “já chega”! Porque é que estás a
chorar?
Foi assim que eu confessei à minha mãe que queria aprender françês
com
o Querubim, que eu não poderia esperar até “ser grande”
etc...etc...etc...
Alguns dias depois, chega o meu pai a casa, apos uma ausência de
alguns
dias devido ao seu trabalho. Estava eu “de beiças”, “sizuda”, de mau
humor.
A mãe explicou-lhe a razão...e, ainda para mais disse-lhe: “desde aí,
todos
os dias ela tem que ir ver o Querubim diante da
loja!
É verdade, ele era um bonito rapaz mas, o que me interessava era que
ele
era estudante “um sábio”, que ele falava françês enquanto que eu,
não
percebia patavina...
O meu pai contou a historia ao Querubim, à mãe dele e, eles riram
muito.
Foi então que o Querubim começou a dar-me umas duas horas de
françês
quase todos os dias!
Apos a aula “gratuita”, ( porque entre amigos e conhecidos não
haviam
histórias fiduciárias), subia eu a avenida para papaguiar em françês
tudo
o que eu havia aprendido nesse dia aos meus avós. O meu avô –ja farto
às
vezes- dizendo-me: Já chega!
E, foi assim que, muitos anos depois, eu ía para a aula de françês ( a
quem
chamavam “ a pencuda”, dizendo mesmo à professora que ela tinha
má
pronúncia!
Hoje, o que me importa desta história é que nunca mais vi o Querubim;
nem
sei se ele é vivo, se tem descendentes...
Gostaria de lhe deixar esta homenagem, pela partilha do seu próprio
saber
comigo!
Dir-lhe-ei, que vim para França inicialmente visitá-la por quinze
dias...
E, por razões do “destino?!”, que me ultrapassam, quedei-me aqui sentada
no
françês com o sofá bem português.
Com a maturação, o “estado de espírito” é outro; com o tempo arranja-se
tempo
para pensarmos naqueles que tínhamos momentâneamente
esquecido.
Com a verdade à frente do olhar, envergonho-me de nunca o ter
contactado,
pedindo-lhe desculpa em muito atraso!
Rosario Duarte da
costa
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25/11/2009
Quando eu era criança, o françês era para mim uma chinezada,
visto que naquela altura, nunca se havia pensado ensinar uma língua
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