Mercredi 27 janvier 2010 3 27 /01 /Jan /2010 10:37




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VIII

Oitava Carta

 

(Vida poética)

EPIFANIA DO SENHOR

 

 

Liturgia da Palavra (Ano C):

Leitura I:

 

Is 60, 1-6:

«Brilha sobre ti a glória do Senhor.»

Salmo 71

 

(72):

«Virão adorar-Vos Senhor, todos os povos da terra.»

Leitura II:

 

Ef 3,2-3a.5-6:

«Os gentios recebem a mesma herança prometida.»

Evangelho:

 

Mt 2,1-12:

«Viemos do Oriente adorar o Rei.»

Versículo Escolhido:

Mt

 

 

2,2 do Evangelho (Os Magos do Oriente): «Onde está – perguntaram eles – o rei dos

Judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O.»

***

Querida Nayma

Tenho-te visto tão cansada esta semana que ainda hesito quanto ao teor e à

extensão desta carta. Mais do que cansada vejo-te agravada em trabalho, em solicitações

e pequenas dispersões, tudo coisas nada importantes mas pouco dadas à

escolha do crivo da ponderação. Olha, seria bom que ponderasses tudo o que te

solicitam, ainda que debaixo de bem intencionados motivos e honestas finalidades.

As grandes finalidades, raramente as vemos realizadas, e talvez felizmente. Por isso

tanto nos devem interessar os meios que é onde estamos quase sempre… Nenhuma

forma de terror é aceitável como meio para atingir supostas finalidades justas.

Digo-te estas coisas porque o Natal é uma altura excelente para aprendermos a

apagar tanta luzinha eléctrica nos nossos presépios pessoais. Toda essa panóplia de

artifício é bem o reflexo da vida eclética e misturada que levamos. As luzes feéricas

não se dão com o musgo. Apaga essas luzes para poderes ver a Luz. Medita através

das palavras dos Reis Magos:

 

«Onde está (…) o rei (…) que acaba de nascer? Nós vimos

a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O.»

 

Estes três reis vieram dizer-nos que

já temos um rei, o verdadeiro e único

 

 

Rei, e por isso lhe trouxeram ouro; e também

que

 

ele é o sumo-sacerdote por excelência pela Ordem de Melquisedec e levaram-lhe

incenso

 

; pela oferenda da mirra assinalaram o quanto ele é imortal e perfeitamente

 

Carlos Aurélio

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divino.

 

 

aquele que é «Consubstancial ao Pai» e «por

quem todas as coisas foram feitas».

Escuta bem Nayma: deixa todas as tarefas que te enchem os dias e pára. Ajoelha

e curva-te perante essa Luz esplendorosa do Presépio que agora estás descobrindo.

Cobre-te sob a doce escuridão do silêncio para que escutes a Luz, ela que

nasce de uma voz íntima que faz ver. Todos estes gestos de veneração ultrapassam

os modernos fantasmas imediatistas que receiam a suposta sujeição a uma religião

do passado, antes é o corpo que assim te conduz à Verdade, minh’Alma, ao verdadeiro

sacrário da existência. Dobra-te e aproxima-te da terra na qual se abre a

Gruta. Quando assim veneras, amas por identificação algo que vive em ti e contudo

te supera. Tu ajoelhas e cresces, tu dobras-te e elevas-te. Tens contigo um Rei,

Nayma, que te convida a entrar no

 

seu reino. Esta gruta na terra é a antecâmara do

seu

 

 

o encontramos, a não ser que se nos revele de surpresa em sua infinita

graça,

 

ele que é a liberdade em potência e acto. Mesmo assim guarda modos encantadores

e subtis para vir até nós. A

 

sua luz não se fechou na gruta do Presépio. Olha,

Nayma, lembras-te quando há poucos meses fui numa certa manhã a Évora? Dei

com aquele episódio de uma mãe apressada a descer do seu jipe para deixar o seu

filhinho no infantário. Eu que passava, assisti ao que não deixa de ser uma banalidade

dos nossos dias: a dor aflita e mal disfarçada no rosto daquela mãe, enquanto

o choro inconsolável do filho lhe gritava em acusação toda a incompreensão possível,

e gritava a pulmões cheios desde o colo de uma qualquer educadora da creche

Palácio nos Céus.

Não sei como explicar-te tamanha simplicidade mas digo-te já num repente: para

entrares no Reino de Deus basta que tenhas uma vida poética. Vive poeticamente!

Não! Sei no que pensas mas nada disto se parece com salamaleques pseudo

intelectuais. Apaga também essas luzes! Nem, evidentemente, isto se aproxima das

grosserias com que os ignorantes aviltam a poesia ou da cegueira com que os incrédulos

a desprezam. Claro que para se ter uma vida poética muito ajuda ler versos,

brancos ou não, mas isso só por si está longe de ser bastante. Mas lê, lê devagar os

versos dos poetas. Podem ser de Camões ou de Teixeira de Pascoaes, de Pessoa ou

de Régio, sei lá, também os de Göethe, de Dante, de Novalis, tens tanta gente à tua

escolha nesse rol dos antigos e dos modernos esquecidos, esses que muitos de nós,

ignorando-os, fingem admirar. Mas também chegarás ao território próximo do

Reino se procurares a companhia de Agostinho da Silva, esse poeta em prosa que

tanto desejava ver os portugueses à solta, ou te juntares a António Telmo, ele que

tão subtil e profundamente nos desbrava os horizontes da filosofia poética.

Viver poeticamente é nunca deixar de procurar Deus no mundo. Aparentemente

não

 

Não pode haver luz eléctrica por perto da luz própria de tão alta simbólica.

Repara bem, Nayma. Olha com toda a tua atenção para o interior da Gruta, esse

útero espiritual da terra. Os Reis Magos entraram agora nela para adorarem a Luz

do mundo, a Encarnação do Criador,

 

ou SOLENIDADE DOS REIS MAGOS,

7 de Janeiro de 2007

Par Rosario Duarte da Costa - Publié dans : Auteurs Lusophones... - Communauté : Caligrafias Poéticas!
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