Arquivo de Exposições Temporárias
Vieira da Silva nas colecções internacionais
Vieira da Silva
A exposição intitulada Vieira da Silva nas colecções internacionais ou Em busca do essencial celebra o décimo aniversário da abertura ao público do Museu da
Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, e pretende homenagear tanto a personalidade como a obra da excepcional artista que foi Vieira da Silva (1908-1992).
Esta exposição, sob o Alto Patrocínio do Presidente da República Portuguesa, é organizada pela Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva em estreita colaboração com a Galerie Jeanne-Bucher, de
Paris, representante da artista desde 1933. Durante cerca de 3 meses, a colecção permanente do Museu será substituída por um conjunto de obras primas de Vieira da Silva. Em exposição estarão
80 obras – 56 pinturas e 24 obras sobre papel – que se destacam pelo grande formato e pela raridade com que foram apresentadas em Portugal. Esta exposição, para além de oferecer uma leitura
antológica do percurso de Vieira da Silva (1934-1992), permite também o desvendar da essência da sua pesquisa plástica e revela o carácter internacional da sua obra, distribuída por todo o
mundo em colecções públicas e particulares de relevo.
Entre as grandes instituições que cederam obras destacam-se: nos Estados Unidos, as prestigiosas colecções do Guggenheim e da antiga Willard Gallery de Nova Iorque, do San Francisco Museum of
Modern Art, da Phillips Collection de Washington, do Walker Art Center de Minneapolis; em França, para além da colecção da Galerie Jeanne-Bucher de Paris, estão igualmente representados o
Musée National d’Art Moderne-Centre de Création Industrielle e o Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris, o Musée d’Unterlinden de Colmar, entre outros; no Reino Unido, a Tate Gallery de
Londres; na Alemanha, a Kunstammlung de Dusseldorf e o Museum Folkwang Essen; na Suiça, a colecção da Fundação Emanuel Hoffmann em depósito no Kunstmuseum de Basileia, a Galerie Alice Pauli
de Lausanne; na Finlândia, o Museum of Contemporary Art de Helsinquia; no Brasil o Acervo Artístico Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo; em Portugal, para além da Fundação
Arpad Szenes-Vieira da Silva, contam-se obras da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, do Metropolitano de Lisboa, dos Bancos MillenniumBcp e Totta. Vários foram também os coleccionadores
particulares, nacionais e internacionais, que cederam obras provenientes de cidades como Nova Iorque, Paris, Londres, Lausana, Lisboa ou Porto.
Para além da proveniência, que só por si traduz o interesse de que Vieira da Silva beneficia no contexto artístico internacional, as obras apresentadas permitirão apreender o desenvolvimento
progressivo de um percurso artístico com lógica própria - a busca do essencial –, num desfile de pinturas incontornáveis e de obras sobre papel que completam habilmente a pesquisa
pictórica.
Desde 1934, o Atelier, Lisbonne revela a primeira afirmação de uma perspectiva fugidia na obra de Vieira da Silva. A este universo fechado, e simultaneamente em osmose com o mundo exterior,
responde La chambre à carreaux (1935), onde se misturam sentimento de liberdade, dinamismo e tonalidade rítmica, numa explosão de vitalidade. Esta descoberta da expressão e da espacialidade
da cor evoca a memória das estreitas ruelas de Lisboa com as suas perspectivas labirínticas e “azulejos que renascem depois na [...] pintura: diferentes, múltiplos, irisados, hesitantes, a
passo de dança, eclipsando-se e rodopiando [...] Por fim esta técnica dá uma vibração que [...] permite encontrar o ritmo de um quadro”, afirma a pintora mais tarde. Le jeu de cartes e La
Scala (1937) são, por sua vez, interrogação do destino, reflexão sobre a existência e “visão múltipla e una”, definição precisa que René Char mais tarde daria do olhar de Vieira da Silva.
Les drapeaux rouges de 1939, La Forêt des erreurs (1941), Le Désastre (1942) e La partie d’échecs (1943), expressam o mal estar que Vieira da Silva sente em relação ao ambiente de crise da II
Guerra Mundial. Em 1940 emigra de Portugal para o Brasil com o marido, o pintor Arpad Szenes com quem casou em 1930, e aí permanecerão até 1947, longe dos regimes políticos totalitários.
De regresso a Paris, depois da Guerra, seguem-se anos de intensa produção artística que darão origem a várias obras primas: Enigme (1947), com os seus corredores contíguos, Joueurs de cartes
(1947-48), onde uma multitude de cartas de jogar é aspirada para o centro da mesa, como se a artista as quisesse rebater, convocando reflexão e acaso; Le souterrain (1948), anuncia a série de
quadros brancos, milagre de equilíbrio entre um côncavo dédalo geométrico e a claridade poétida que daí emana; La Gare St-Lazare (1949), deve a sua consistência a uma notável mestria na
representação do vazio e das tonalidades que o compõem, sendo a sua ossatura sugerida por pinceladas delicadas que lhe conferem uma respiração surpreendente; Echec et Mat (1949-50), onde o
tabuleiro mantém o centro da tela numa estabilidade ordenada e controlada; L’entrée du château ou Hommage à Kafka (1950), com os seus mil brancos e cinzentos e traços que parecem orquestrar
uma saída, longínqua e incerta; La ville nocturne ou Lumières de la ville (1950), numa visão premonitória de Nova Iorque; Le promeneur invisible (1949-51) onde, como o título sugere, o
espectador se torna actor e é convidado a passear numa variedade de espaços, avançando e recuando, num percurso onde o antes, o durante e o depois se confundem voluntariamente. Vieira está
perfeitamente consciente da sua pesquisa: “Olho a rua, as pessoas andam a pé e sobre diferentes aparelhos, a velocidades diferentes, sonho com os fios invisiveis que os puxam. Não têm o
direito de parar. Já não os vejo, tento ver o mecanismo que os move. Parece-me que talvez seja o que eu tento pintar.” Composition blanche (1953) e Composition (1955), duas obras cujo
perfeito domínio do branco revela um momento fulcral na pesquisa pictórica de Vieira, ao nível das energias e das tensões vitais. Estes brancos incorpóreos, estas procuras de absoluto serão
recorrentes ao longo do percurso da artista e visíveis em obras como Stèle (1964) - infelizmente retida em Paris no Centre Georges Pompidou -, L’équité (1966), Chemins de la paix (1985),
Dialogue (1984-85) e Courants d’éternité (1990). Os anos 50 são os anos de consagração da artista, com uma série de exposições importantes, aquisições e encomendas de altas instâncias
públicas e privadas em França e no estrangeiro e atribuição de prémios e condecorações em França e nos Estado Unidos, o que a coloca definitivamente ao nível dos grandes artistas do seu
tempo. Em Portugal, só em 1970 é realizada a sua primeira grande exposição e só depois de 1974 é agraciada com as mais altas condecorações portuguesas.
Durante os anos 60-70, Vieira da Silva produz obras essenciais como Bibliothèque (1966), La Bibliothèque en feu (1970-74) e La Bibliothèque de Malraux (1974). O tema das bibliotecas é
recorrente, alas labirínticas ou quadrículas regulares lembram os corredores infinitos das grandes bibliotecas e são outras tantas metáforas para os arcanos do pensamento; Conséquences
contradictoires e La Basilique (1964-67) e, mais tarde, Mémoire (1966-67), maravilhosos percursos na consciência da artista; Instrument de musique (1971) cujas variações de luz contribuem
para a arquitectura da obra, Les trois fenêtres (1972-73) ou três propostas relativas ao espaço da pintura.
O final dos anos 70 e os anos 80 são marcados por uma investigação de quintessência; perseguindo a sua recusa de certezas: “Precisamos de acreditar na certeza. Mas habituei-me a acreditar que
não há nada estável, que tudo muda continuamente. (...) Não se sabe, nunca se sabe. (...) É a incerteza que é a minha certeza. O mundo muda. Os olhos mudam. (...) Tudo é tão subtil! Por
vezes, pelo caminho da arte sinto iluminações súbitas mas fugazes e sinto então, passageiramente uma confiança total, fora do domínio da razão. (...) Na minha pintura, vê-se essa incerteza,
esse labirinto terrível. É o meu céu, esse labirinto, mas talvez que no meio desse labirinto encontraremos uma certeza pequenina. (...) Creio que o que se pinta não se vê. É aí, no nosso
corpo todo que isso se passa, e na nossa mão evidentemente.” Durante estes anos, o diálogo com a vida, a incerteza como via de conhecimento, incitam-na a projectar nas suas telas filtros que
lhe permitiam passar por estados de consciência pertencentes ao “outro” lado do espelho. A doença de Arpad Szenes, a preparação para uma solidão forçada e a consequente perda do marido em
1985, reflectem-se em obras cuja subtileza não pode senão evocar um sentimento geral de elevação que perdurará até à sua morte em 1992. Assim, as obras do último período L’Empire céleste
(1977), La Patience (1981-84), Les Chemins de la paix (1985), L’issue lumineuse (1983-86), Soleils (1986), Dialogue (1984-88), Ariane (1988) e Courants d’éternité (1990), sem esquecer as
quatro têmperas intituladas La Lutte avec l’ange I,II,III e IV, revelam-se em toda a sua mestria, acordo interior, aceitação e libertação, em resposta – pela sua comunhão com uma
verticalidade meditativa – às obras precedentes e construídas, que souberam explorar zonas internas da consciência no seu aspecto labiríntico, e cujo longo caminho em direcção à luz se fez
através de “uma libertação de energia” ou de um “espaço transformado em energia. Mas Vieira da Silva não nos tinha já falado de algo irreductivel a que chamou energia e que talvez não morra
nunca? “Sinto-me muito separada do meu corpo, e isto não é novo, sempre me senti separada dele. (...) O meu cérebro vai apodrecer como tudo o resto. Mas há algo talvez, que os cientistas
ainda não descobriram, que não apodrecerá e que nome dar a essa coisa? Uma energia? Creio que a consciência do individuo acaba com a morte (...), mas estou convencida que trazemos em nós uma
energia comparável às ondas de um aparelho de rádio: se nos deitarem fora depois da morte, como um rádio usado, as ondas, essas, continuam a irradiar.”
Esta homenagem a Vieira da Silva não poderia estar completa sem a organização de uma série de acontecimentos:
- um catálogo da exposição trilingue (português, francês e inglês) com todas as obras reproduzidas a cores, com três textos críticos sobre a obra de Vieira da Silva da autoria de Eliza
Rathbone, Conservadora da Phillips Collection de Washington; Jean-Louis Prat, Director da Fondation Maeght em Vence; António Tabucchi, escritor.
- um ciclo de conferências que terá lugar no auditório da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva.
- um concerto de homenagem a Vieira da Silva, com compositores e peças preferidos da artista: as 6 danças populares romenas de Bartok, Kreuzspiel de Stockhausen e as 7 últimas palavras de
Cristo de Haydn, interpretadas pela Orquestra Metropolitana de Lisboa sob a Direcção de Emmanuel Jaeger, no Palácio da Ajuda, sexta-feira 5 de Novembro às 21h30.
- um documentário sobre Vieira da Silva especialmente concebido para a exposição, realizado por Alexandre Reina e que será projectado no auditório da Fundação e na RTP 2.
- um percurso de eventos oficiais e culturais será organizado em Lisboa, durante o período de inauguração da exposição, acolhendo numerosos coleccionadores internacionais (particulares e
instituições) que estarão presentes para esta homenagem a Vieira da Silva.

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