- Pelas mãos de quem se deu a sua entrada na Rádio Barlavento, para gravar nos idos anos 60? Ti Goy?
Não, foi o Sr. Luís Carlos. Na altura quem me acompanhava nas minhas
actuações era o Ti Goy e o Careca. A todos os lugares onde eu ia cantar, nomeadamente o Grémio, eles me acompanhavam. Assim, quando recebi o convite para gravar na
Rádio Barlavento, foram eles a acompanhar-me.
- Como reagiu ao convite para essas gravações?
Estava acostumada a cantar em bares, restaurantes e navios estrangeiros que
aportavam ao Porto Grande de São Vicente. Por isso, reagi com normalidade ao convite. Mas é claro que gostei.
- Como foi a experiência de entrar pela primeira vez num estúdio aos 20 e poucos anos, para gravar?
Estava rodeada de meus amigos e companheiros das lides musicais. Por isso,
senti-me à-vontade e gravámos sem problemas.
- Quando ouviu a sua voz na Rádio Barlavento como reagiu?
Quando escutei a minha voz pela primeira vez achei um pouco estranho. Mas à
medida que escutava sentia-me bem, contente por estar a ser ouvida por toda a ilha de S. Vicente. Com o passar do tempo isso tornou-se normal para mim.
- Diz o jornalista Carlos Gonçalves que Cize era a “pérola” de Ti Goy. Como era conviver com o Ti Goy, que é tido como um dos melhores
compositores de coladeiras de todos os tempos?
Eu e o Ti Goy conhecíamo-nos bem. Ele e o Careca acompanhavam-me nas
actuações em casas particulares, nos navios, em todo o lado. Éramos amigos e tinha (e ainda tenho) um imenso prazer em cantar as músicas dele. Mas eu também
cantava acompanhada por Frank Cavaquim e Luís Rendall, duas outras grandes figuras da nossa música ainda hoje.
- Era a Cize que escolhia as músicas ou Ti Goy?
Muitas vezes, ele trazia-me músicas; outras vezes, eu sabia de alguma e
compartilhava com ele. Escolhia aquelas de que eu gostava, cuja letra me dizia alguma coisa e cuja melodia era do meu agrado. Ensaiávamos, interpretávamos nas
actuações públicas e gravávamos na Rádio Barlavento. Era tudo ao vivo, sem grandes meios, bastante diferente do que acontece agora.
- Na época, segundo sei, pagavam-lhe 25 escudos por cada gravação, é verdade?
Sim, é verdade, pagavam-me 25 escudos por cada música gravada. Cheguei a
gravar oito músicas num só dia e recebi 200 escudos! Outras mulheres também gravavam – Arminda Santos, Mité Costa, Titina Rodrigues –, mas não sei se a elas
pagaram. Também gravei no Rádio Clube do Mindelo, mas ali nunca me pagaram.
- O que dava para comprar com esse dinheiro?
Muita coisa. Naquela época a vida era mais barata e com 200 escudos dava
para resolver muitos problemas. Mas agora … As coisas mudaram (risos). Completamente!
- No Museu de Arte Tradicional, onde em tempos funcionou o Grémio Recreativo li que naquela agremiação só entravam os sócios, gente
conservadora e da elite do Mindelo. Como reagiam quando Cesária Évora cantava as mornas picantes do Ti Goy?
Era muito interessante. O Lulu Marques convidou-me e à Arlinda Santos e
outra cantora cujo nome não me recordo (talvez a Mité Costa) para actuar no Grémio Recreativo quando chegou ao Mindelo a comitiva de uma escola de Coimbra. Naquele
dia, o Lulu Marques decidiu comprar-me uns sapatos. Disse-lhe que não queria calçá-los. Mas ele insistiu e aceitei. Fomos à loja do Sr. Neves onde me ofereceu uns
sapatinhos pretos. Fui ao Grémio Recreativo com os meus sapatos novos, mas estava pouco à-vontade. Quando chegou a minha vez de cantar, sentia-me pouco à-vontade.
Uma senhora, cujo nome não sei, mas creio que era a directora da tal escola de Coimbra, perguntou-me se me estava a sentir bem. Então, confessei-lhe que não queria
usar aqueles sapatos. Ela respondeu-me: se quiser cantar descalça esteja à vontade. Tirei os sapatos e cantei. Mostrei ao Lulu que naquele momento quem mandava era
eu, pois as pessoas tinham ido lá para me ouvir cantar. E, afinal, nasci descalça.
- Não gosta de usar sapatos?
Não, mas não é nada disso. Apenas não gosto que me obriguem a fazer coisas
de que não quero.
- Naquela época Cesária gravou um disco pela Casa João Mimoso. Como foi?
O povo gostou, pena que o João Mimoso não me pagou. A OMCV também não me
pagou quando gravei o disco «Mar Azul», em 1985. Isso só veio a acontecer mais tarde. Depois, fui com o Bana para Portugal, em 1987, e gravei ali quatro discos.
- Apesar de ter gravado esses discos, Cize, ao contrário de outros artistas, não conseguiu grande projecção. Porquê?
Ora, naquela época ainda não tinha o “meu” produtor junto de mim, o Djô da
Silva, que Deus pôs no meu caminho. Ele levou-me para França e deu um grande impulso à minha carreira que é hoje aquilo que todos vêem.
- Djô da Silva é então muito importante para si?
Com certeza!
- Carlos Gonçalves diz num artigo sobre si que “o sucesso que Cesária conquistou é uma vingança do destino e uma vitória da música
cabo-verdiana”. Concorda?
Sim. Durante muito tempo trabalhei, porém, não fui reconhecida nem
recompensada. Graças ao Djô da Silva, em 1987, fiz a primeira actuação em França, despertei a atenção da comunicação social e aqui estou hoje com o meu «Grammy» e
os meus discos de ouro conquistados em vários países.
- O que achou da ideia do Djô da Silva de editar em CDs os êxitos que cantou e gravou na Rádio Barlavento e que estavam esquecidos no arquivo
da Rádio de Cabo Verde em S.Vcente?
Gostei imenso da ideia. O CD é uma recordação dos meus primeiros anos de
carreira que vou guardar com muito carinho.
"SemanaOnline"
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