Mercredi 25 novembre 2009 3 25 /11 /Nov /2009 09:51



Casa
Photos: www.montalegre-do-cercal.com

Sim...recordo-me do Dr.Macedo e Familia...
da casa onde eu entrava por vezes...
Tão perto e, tão longe!

 

Em Homenagem ao Querubim!



 

Quando eu era criança, o françês era para mim uma chinezada,
visto
que naquela altura, nunca se havia pensado ensinar uma língua na

escola primária.

 

 

Sabia da existência de alguns países- como a China-, por ter tido

oportunidade de ler livrinhos “em relevo”, recortados com imagens

da China; por ter usado no verão daqueles chapéus –em bico-, por

causa do sol na praia...

 

Conhecia a França, por ter lido alguns livrinhos de autores françeses

traduzidos em português; por ter visto françeses em Vila Nova de

Milfontes em particular na pensão desta cidade “antigamente vila”

que era de uma prima da minha avó. Arranhava a língua com o

“merci” ou “au revoir” que eu expremia com “merrrci” e “ ô revar”,

pensando falar já, a língua de Voltaire.

 

Assim caminhei nos primeiros anos de vida, sem me aperceber que

o françês era uma língua “viva”, muito literária e, que qualquer autor

no mundo desejaria passar pela França para ser reconhecido!

Não esqueçamos que a França antes de acolher a dita “emigração”,

no século XX, há muitos séculos havia acolhido desde os tempos

remotos, escritores e sábios portugueses.

 

Um dia porém, numa altura em que eu estava de férias de verão e que

ainda a ida para a praia tardava, fui visitar ( como todos os dias)

a minha avó Georgina e, de regresso a casa, dei uma voltinha

-como sempre- pela avenida.

Desci até chegar à Bomba de Gasolina do Sr. Isidro (que era o padrinho

do meu pai) e, um pouco mais abaixo havia uma loja à esquerda com

um jovem sentado a ler um livro. Era o Querubim, um jovem estudante

a quem eu perguntei logo o que ele lia...

Levantando o olhar para mim disse-me:não te posso explicar, és muito

pequenina, estou a ler um livro em françês!

Fiquei pasmada! Em Françês? E, não me pode ensinar o françês?!

- Disse-me logo: quando entrares no colégio aprenderas também o françês!

 

Parti, numa correria doida até casa. Fui chorar para o quarto e, o rio de

lágrimas deve ter alagado a casa porque a minha mãe chegou a correr

dizendo-me “já chega”! Porque é que estás a chorar?

 

Foi assim que eu confessei à minha mãe que queria aprender françês com

o Querubim, que eu não poderia esperar até “ser grande” etc...etc...etc...

 

Alguns dias depois, chega o meu pai a casa, apos uma ausência de alguns

dias devido ao seu trabalho. Estava eu “de beiças”, “sizuda”, de mau humor.

A mãe explicou-lhe a razão...e, ainda para mais disse-lhe: “desde aí, todos

os dias ela tem que ir ver o Querubim diante da loja!

 

É verdade, ele era um bonito rapaz mas, o que me interessava era que ele

era estudante “um sábio”, que ele falava françês enquanto que eu, não

percebia patavina...

O meu pai contou a historia ao Querubim, à mãe dele e, eles riram muito.

Foi então que o Querubim começou a dar-me umas duas horas de françês

quase todos os dias!

Apos a aula “gratuita”, ( porque entre amigos e conhecidos não haviam

histórias fiduciárias), subia eu a avenida para papaguiar em françês tudo

o que eu havia aprendido nesse dia aos meus avós. O meu avô –ja farto às

vezes- dizendo-me: Já chega!

 

E, foi assim que, muitos anos depois, eu ía para a aula de françês ( a quem

chamavam “ a pencuda”, dizendo mesmo à professora que ela tinha má

pronúncia!

 

Hoje, o que me importa desta história é que nunca mais vi o Querubim; nem

sei se ele é vivo, se tem descendentes...

Gostaria de lhe deixar esta homenagem, pela partilha do seu próprio saber

comigo!

Dir-lhe-ei, que vim para França inicialmente visitá-la por quinze dias...

E, por razões do “destino?!”, que me ultrapassam, quedei-me aqui sentada no

françês com o sofá bem português.

Com a maturação, o “estado de espírito” é outro; com o tempo arranja-se tempo

para pensarmos naqueles que tínhamos momentâneamente esquecido.

Com a verdade à frente do olhar, envergonho-me de nunca o ter contactado,

pedindo-lhe desculpa em muito atraso!

Rosario Duarte da costa

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25/11/2009




Quando eu era criança, o françês era para mim uma chinezada,
visto
que naquela altura, nunca se havia pensado ensinar uma língua na
Par Rosario Duarte da Costa - Publié dans : biografia....Rencontres... - Communauté : Caligrafias Poéticas!
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