Mardi 15 décembre 2009 2 15 /12 /Déc /2009 13:47






Auteur des photos de cette page: Fernando Jorge Barros www.olhares.com

A Ponte ao final do dia



Arcadas da Praça do Comercio
 

Condes


Cantigas do Maldizer 
!

 


Era ali...
Era !

 

Estavas de pé, com ar malicioso olhando para dentro de mim...

Vi-o. E, não queria que me olhasses assim. Detestei-te logo, ali.

 

Não me conhecendo ainda, já inventavas histórias. O teu poder

exacerbado no trabalho, os amigos – dos quais te vendias-, a tua

família...

Mas, que me interessava isso, se fui ali ver-te por outras razões?!

 

Entrei no teu gabinete. Interrogás-te-me com aquelas perguntas

vazias, era só ”a menina” para a esquerda, para a direita...e, a

menina que eu era, não queria responder-te!

Olhei para o tipo que estava ali a trabalhar na contabilidade.

Dissés-te-me logo: “é o Senhor Nabais” que...”o senhor Nabais

é muito sério e, no qual eu tenho inteira confiança!”.

 

Que me importava eu o “senhor Nabais”, que me importava a mim

a tua vida, se o que eu queria era resolver o assunto da visita a um

amigo...

 

Ficás-te contrariado logo que eu saí, por eu te ter impedido de me

acompanhares. Ora essa, desde quando um desconhecido dirige a

minha vida dizia-me eu?!

 

Lá fui, sózinha e apressada- como sempre- para os meus afazeres

estudantis, para a rádio e ainda, para outra coisa qualquer...

Ia, contente de mim. Forte, por ter podido rejeitar o teu avanço. Por

ter conseguido a minha indepêndencia de ser humano, naquele país

trufado de pides!

 

E, tão independente que eu o era, logo me aconcheguei aos meus

colegas preferidos, contando-lhes logo a história do perceptor que só

queria conversa!

 

Isso mesmo, disse-o eu igualmente à minha mãe que me havia

retorquido logo: “tanta vez a cantarinha vai à fonte que se quebra”!

Não comprendi logo o que ela me desejáva transmitir. Não fazia mal.

Estava dito e, nada mais haveria a dizer.

 

Lá fui continuando a minha vidinha, sempre carregada de sebentas e de

livros; achava que nada ía bem mas, era ainda para mim o menos mal.

Era!

 

O tempo ía passando. Eu desde manhãzinha oscilando entre as duas

margens do Tejo. As águas marulhando-me nos ouvidos e, as gaivotas

levantando voo conspiravam o ar que lhes era imposto!

 

 

 

Mas, algumas semanas depois o novo o nosso caminho cruzou-se.

Aproveitei logo para te dizer que te considerava um “pide”. Fôs-te

perceptor graças ao teu primo que era director geral dos serviços

prisonais. Não foi?!

Está certo. Talvez tivésses algumas competências; talvez gostásses

do teu trabalho, dos prisoneiros, das suas famílias. Talvez!

O problema era que, eu duvidava quase sempre daqueles que viviam

no sistema salazarista. Que queres?!

 

Mais longe ainda, conseguis-te então acompanhar-me à Pastelaria ali,

na baixa. Mas, logo aproveitás-te para dizer parvoiçes e, eu, deixei uma

vez mais caír os meus livros pesados ali no chão. Toda a gente se virou

para a mesa. Fiquei encavacada e, não gostei!

 

Sei que te disse que teria que partir visto ter que me deslocar à

Embaixada do Japão em Lisboa, nessa noite. E, aí, arranjás-te logo

meio de te salvar. Chovia. Convidás-te-me para me acompanhar no táxi,

o que “ à priori”, poderia ser um acto de civismo. Concordei. Lá fômos.

Mas, fizés-te parar o táxi em frente da casa dos teus pais, com o pretexto

de me emprestáres um chapéu de chuva. Asneira!

 

Tive que te acompanhar ao apartamento dos teus pais. Vi-os

esconderem-se por detrás de um cortinado. Depois veio o teu pai que

me cumprimentou e, logo disse: ah!, é a menina que pássa sempre no

Rossio com um chapéuzinho na cabeça?!

-         Fiquei perplexa!!!

Os teus pais olharam para mim. Eu tinha pestanas postiças, o cabelo

penteado com ar de gueicha. Tinha!

 

Lá partimos. Estava já em atraso. Estava já contrariada. Estava já, com o

ar desfeito, antes de ir à recepção na embaixada. Odiei-te logo!

E pronto, posso odiar quem eu quero. Para mais, não eras o meu estilo.

Pequenino, modo “passe partout”, inteligência comum...moreno. A única

coisa que me atraía era que tu, não ladravas! Eu nunca gostei  de cães

rafeiros!

 

Acabei por não ír. Andámos a caminhar por Lisboa, como se caminha

numa floresta imensa. Zangas e contrazangas, eu defendendo um

socialismo que tu confundias com outros “ismos”, tu apontando em mim

defeitos múltiplos...

 

Assim andámos zizezagueando meses infindos. Assim andámos perdidos

sem norte nem sul, eu continuando no meu mundo, tu aparecendo como

um relâmpago no seio dele...

 

Foi assim. Começou mal e, não sei como acabará um dia. Entre nós há

um labirinto de coisas e loisas.     Quarenta anos de comunidade (?!)

familiar, (quarenta?!) e, três filhos...e três netos. Eu, que sonhei com

amores platónicos – como os de Fernando Pessoa para com a sua ninfa...

 

Há destes desastres na vida. Há!

E tu não dizes nada? Gostas de estar sentado –sempre na mesma cadeira-,

com um copo de vinho ( de preferência de marca) na mão; sem chatices,

sem contrariedades, sem fazer esforços. És lento, como sempre fôs-te. E,

agora?!

-         Agora-dizes- esperemos o fim.

O fim de quê? O fim de quem? La muerte?

 

Estou perplexa. Duas vezes perplexa. A culpada sou eu. Pois, com a

minha dita “sapiência”, mostei a pobreza minha, aquela pobreza de não

se saber erguer um dia, inteira, altiva e levantada ao mundo -como o

templo de Delfos!

Rosario Duarte da Costa

Copyright

14/12/2009


Sé de Lisboa


Barco de pesca tipico de alcochete














Hábitos que nuncam mudam




Par Rosario Duarte da Costa - Publié dans : Lisboa - Communauté : Caligrafias Poéticas!
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