Vendredi 27 novembre 2009 5 27 /11 /Nov /2009 10:55



Photo téléchérgée sur: http://revistazunai.com



Voici un poème de plus de Nuno Júdice, trduit par Jean-Pierre Lèger
dans la revue Prétexte.
Il est beau, il parle, il chante!
Je vous l'offre.
Rosario Duarte da Costa
Copyright
27/11/2009

J'insère aussi un article de la Revue "azunai" sur l'auteur.

Nuno Júdice
traduit du portugais (Prétexte 18/19)

 

A Florence

Comme si la bataille était gagnée aux Uffizi, Paolo
avance avec son armée ‹les chevaux
noirs, guerriers aux écus symétriques, lances comme
des crayons taillés pour l'exercice ‹dans le couloir.
Je l'attends au bar du musée, qui
est le meilleur endroit qui existe dans n'importe quel musée
pour attendre (non, parfois il y a des canapés qui sont placés au milieu
de la salle, d'où l'on peut voir les tableaux
majeurs, ceux qui montrent des scènes de tempête, des naufrages,
des bateaux perdus comme des morceaux de bois dans la furie
des eaux) ; et je prends un jus de pomme, chaud, parce que le
réfrigérateur du comptoir est en panne. Cela arrive
parfois en été et dans la chaleur de la bataille : les armées
placées face à face, et Paolo prêt à donner l'ordre
d'attaque comme si en dépendait la chance du monde. Il est
vrai que c'est lui le peintre ; et c'est donc à lui d'expliquer
pourquoi cette scène a un ton si géométrique qui ne se
remarque presque pas à cause du sang, de la poussière et de la boue,
quand le sang et la poussière se confondent. Ce qui domine pourtant,
ce ne sont pas les lois de la guerre mais les règles de la couleur et de la
proportion ; tout leur obéit comme si maintenant la seule bataille
à gagner était celle de la lumière. Ce qui n'est pas
rien, dit Paolo, en avançant dans le couloir avec les pinceaux
et les tubes d'encre avec lesquels il va corriger la scène : "Les
chevaux ne sont pas réussis, me dit-il, ils sont noirs
et ils devraient être bleus parce que dans une bataille seuls les chevaux
bleus sont invincibles." Je lui demande pourquoi ; et il me répond que
c'est parce qu'ils se confondent avec la couleur du ciel. Nous sommes donc dans une bataille d'anges et d'hommes ; et les guerriers qui montent des chevaux bleus semblent vêtus de feu et portent
sur la tête les rayons qui fulmineront
les ennemis et brûleront l'herbe des champs. "Ici
rien ne repoussera plus." Si ce n'est l'amour. Une plante
brusque comme le désir qui existe entre la terre sèche et le ciel
chargé de nuages prêts à se défaire en eau. Un
amour sans limites au centre de l'hiver. Je peux alors sortir
des Uffizi. Les travaux sur la place continuent, ce qui est normal
sur ces places anciennes. Une grève d'autocars m'oblige à
aller à pied jusqu'à la gare. Derrière moi, courent les chevaux
bleus de Paolo Uccello : et leurs sabots me battent dans
les oreilles jusqu'à ce que j'entre dans le wagon, m'assois et laisse
Florence en arrière, à mesure que le roulement des essieux ne se
substitue au rythme monotone des cavaliers qui courent
vers les autres, dans la symétrie exacte des secondes
qui précèdent la bataille.

 


© Nuno Júdice, 1998, pour le poème original. Traduction du portugais de Jean-Pierre Léger, publiée avec l'aimable autorisation de l'auteur.

Nuno Júdice (cf.notice de l'auteur)

 

> Retour au sommaire : "Traductions inédites(poésie

 

ZUNÁI - Revista de poesia & debates

 

 

O PRAZER DA INVENÇÃO:

UMA CONVERSA COM NUNO JÚDICE

 

 

Por Maria João Cantinho

 

Nuno Júdice nasceu na Mexilhoeira Grande (Portugal), em 1949. Poeta, ficcionista e professor universitário, com inúmeros ensaios publicados, tem uma obra vasta e diversificada. É atualmente professor da Universidade Nova de Lisboa, onde se doutorou (1989), apresentando uma dissertação sobre Literatura Medieval.

Exerceu ainda as funções de conselheiro cultural da Embaixada de Portugal e de director do Instituto Camões em Paris. É nessa época que também se inicia a tradução da sua obra em França, pela mão do editor e tradutor Michel Chandeigne. Tem, também, a sua obra traduzida em Espanha, Itália, Venezuela, Inglaterra e França. No Brasil, tem obra publicada sob a chancela da editora Escrituras.

Divulgador da Literatura Portuguesa do século XX, publicou em França Voyage dans un siècle de Littérature Portugaise (1993), reeditado e revisto na edição portuguesa Viagem por Um Século de Literatura (1997). Colaborou em acções de divulgação cultural, como as Letras Francesas (1989), com uma apresentação de autores franceses contemporâneos, e organizou a Semana Européia da Poesia, no âmbito da Lisboa 94 - Capital Européia da Cultura.

Poeta e ficcionista, publicou o primeiro livro de poesia em 1972, A Noção de Poema (Publicações Dom Quixote). Recebeu importantes prêmios da poesia portuguesa: o Prêmio Pen Clube (1985), Prêmio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus (1990), Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores (1994), este último com o livro Meditação Sobre Ruínas, que foi também finalista do Prêmio Europeu de Literatura Aristeion. Recebeu também o Prêmio Fernando Namora da Sociedade Estoril Sol com o romance O anjo da tempestade. Publicou diversos estudos sobre Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa, antologias, edições críticas, e tem uma colaboração regular em jornais e revistas como cronista. Como dramaturgo, produziu obras para teatro e traduziu autores como Corneille, Shakespeare e Emily Dickinson.

Foi diretor da revista literária Tabacaria, editada pela Casa Fernando Pessoa, e comissário para a área da Literatura da representação portuguesa à 49ª Feira do Livro de Frankfurt. Com o seu último livro de poesia, As coisas mais simples, acaba de receber o Prêmio António Ramos Rosa.

 

Zunái - Uma das coisas que mais me impressionam na sua obra é, além da grande qualidade que lhe assiste, a sua vastidão, o que faz de si um dos casos raros na literatura portuguesa. Com uma atividade intensa, como consegue conciliar a vida com a escrita?

Nuno Júdice - Sem vida não haveria escrita. Mas essa conciliação decorre de uma disciplina que me obriga, diariamente ou quase, a escrever. E também a ler, embora essa leitura seja quase sempre uma releitura dos autores que me acompanham desde sempre, e que estão ao meu lado na estante: Herberto, Ruy Belo, Jorge de Sena, Drummond, Vinicius, Rilke, Ashberry, Eliot. e os que vou descobrindo, sobretudo da poesia anglo-americana, que é aquela de que me sinto mais próximo, depois da portuguesa. O último foi Robert Nye, com um poema delicioso publicado no TLS de 21 de dezembro sobre o milagre de Canaã.

Quanto à conciliação com outras actividades, neste momento o que me empenha sobretudo é o ensino, e gosto de o fazer porque é complementar da minha criação, embora o contrário também pudesse ser verdade. Podia dizer que isto me obriga a uma reduzida vida chamada social, a participações em atos culturais ou literários que todos os dias têm lugar nesta cidade de Lisboa, mas devo dizer, por outro lado, que ainda bem que assim é, o que me mantém afastado dos faits divers desse quotidiano que é, quase sempre, muito empobrecedor da criatividade.

 

Zunái - Sei que é muito metódico na sua escrita, creio que falamos nisso um dia. Mas qual a função da inspiração, para si? Ela tem muita importância ou considera-se mais um artesão?

NJ - A inspiração é a parte menor da criação. O poema nasce em geral de um objeto, uma memória, uma imagem - e é a partir daí que a sua construção vai sendo desenvolvida. Pode ser um quadro ou uma escultura, como pode ser uma fotografia, ou uma simples cena do quotidiano. No entanto, é a palavra que vai guiar a escrita poética; e por palavra entendo também o lado fônico, sonoro, que obriga à procura de um ritmo e de uma respiração que vão buscar à música as suas regras. Mas também não me considero um artesão dado que não preciso de trabalhar demasiado o objeto poético: o poema nasce praticamente já acabado, e se há um trabalho ele dá-se na cabeça, antes de passar à página o texto.

 

Zunái - - Fala nesse empobrecimento da atividade criadora, quando o poeta vive mergulhado no quotidiano. Mas a sua vida, em grande parte, foi dedicada a uma atividade cultural e social que o retirava a esse espaço silencioso. Lembro-me da sua estadia em Paris, por exemplo. Como conseguiu sobreviver a isso?

NJ - Não creio que se possa falar de um quotidiano pobre quando existe uma dimensão poética da vida que o procura transformar em matéria poética - e muito menos quando esse quotidiano decorre em Paris, onde existe uma presença constante da arte - do teatro à música, às exposições, à própria arquitetura da cidade. Mas é também no lado menos «nobre» ou elevado desse quotidiano que, muitas vezes, o poema vai buscar a sua fonte: os pobres, as cenas de café ou do amanhecer de uma cidade, a solidão, tudo vão ao encontro dessa procura de uma realidade capaz de encontrar na linguagem poética uma transfiguração que talvez não lhe retire a tragédia, mas que lhe poderá acrescentar uma imagem coleciva.

 

Zunái - A sua estadia em Paris e o contacto com o meio literário francês contribuiu largamente para a sua divulgação fora de Portugal. Pode-se afirmar que o Nuno Júdice é dos primeiros casos de autores portugueses a ser conhecidos em Paris ou, quando chegou, já havia o trabalho de Chandeigne e de Vital, na edição de obras portuguesas?

NJ - Havia já algum trabalho de tradução mas sobretudo no plano da ficção. O que mudou radicalmente o panorama do conhecimento da poesia portuguesa em França foi a descoberta da importância de Fernando Pessoa que teve lugar a partir da década de 1980. Pessoa estava traduzido desde os anos cinquenta, mas a verdade é que lhe faltava um reconhecimento canônico. Lembro-me de ter visitado a casa-museu de Aragon, nos arredores de Paris, onde está a sua biblioteca: e o volume de poemas de Pessoa estava incólume, nem fora aberto. O que sucedeu com a minha poesia foi ter tido a sorte de encontrar um excelente tradutor e amigo, o Michel Chandeigne, e a colecção Poésie/Gallimard ter aceite a proposta de editar Um canto na espessura do tempo e Meditação sobre ruínas. Sendo uma colecção de referência no mundo, foi a partir daí que a minha poesia chegou a países como a Turquia, a Albânia, Israel, Vietnã, Bulgária etc. Fui o primeira poeta vivo a ser publicado nessa colecção (em língua portuguesa havia apenas o Pessoa); depois de mim foram publicados Eugénio de Andrade e António Ramos Rosa, para além de uma excelente antologia da poesia portuguesa feita pelo Michel Chandeigne. Terá sido a boa recepção do meu livro que abriu o campo para essa continuidade, dado que a primeira edição de quatro mil exemplares esgotou, e saiu uma segunda, o que em França - e sobretudo para a poesia - é um caso raro.

 

Zunái - Tem obra traduzida em vários países, o que eu considero um privilégio. O que acha que falta à obra de poetas portugueses (como sabemos, alguns de extraordinária qualidade) para que possam chegar a outras línguas, a outros países? Uma política acertada, uma vontade de conhecer a poesia portuguesa?

NJ - Falta hoje, sem dúvida, essa política. Uma das áreas em que Portugal pode afirmar a sua diferença, originalidade e qualidade em relação a outras culturas, é a poesia; e, do ponto de vista de orçamento, o apoio a viagens e edição é ridículo, se compararmos com a música, o teatro, a pintura etc. O problema, por outro lado, é que essa divulgação passa também pela personalidade dos poetas e pela sua capacidade de encontrarem os canais próprios para a sua comunicação. Não havendo agentes literários para a poesia, o poeta - e a sua obra - é o grande agente de si próprio. Foi isso que aconteceu com a minha poesia: foi através de leituras em encontros internacionais, e em festivais importantes como o de Roterdão, o de Durban ou o de Medellin, que tradutores e editores se interessaram em publicá-la. Essa capacidade de comunicação talvez falte a alguns poetas; os outros, será a dificuldade em traduzir a especificidade da sua linguagem. A minha poesia, sem abdicar de uma exigência formal que sempre mantive, fala de temas universais que interessam a qualquer leitor.

 

Zunái - Num poema do seu último livro, As coisas mais simples, diz: "Hoje, prefiro cantar as coisas simples, as que/crescem depressa, como os ciprestes, ou as/que se enrolam a tudo o que aparece nos muros (.)". É um regresso? Sente que algo mudou no seu olhar?

NJ -  Há aqui sem dúvida uma referência aos grandes temas da literatura - a morte, a vida, o amor, o sagrado - que percorrem toda a minha poesia; e a constatação de que há outras coisas para além deles, que se encontram nestes pequenos aspectos da natureza ou do quotidiano. Não substituo umas coisas por outras: tudo tem o seu tempo e a sua atualidade para quem escreve; mas há uma opção por me debruçar, neste momento, sobre o que se poderia considerar o efémero, seja do mundo humano seja do espaço natural e cósmico, para descobrir uma lógica que sobrevive à queda e ao fim a que estamos condenados. Não o faço, no entanto, com uma simpatia melancólica, mas com esse «desejo de durar» que encontrei algures num livro e que faz parte da nossa essência, contrariando as pulsões negativas que nos empurram para o seu oposto.

 

Zunái - Curioso quando diz que existem os grandes temas da literatura. Refere-se aos grandes temas clássicos. Acha que essa afirmação é válida para os jovens poetas atuais que se afastam desses temas "duráveis"?

NJ - Se eles se afastam, afastam-se também daquilo que é a grande poesia, e estão condenados a essa mediocridade que os irá engolir. Devo dizer que é o grande problema de alguns desses jovens poetas: a incapacidade de encontrarem uma referência que possa funcionar como um terreno fértil para a sua linguagem. Sem isso, os poemas podem ser bem feitos, limpinhos do ponto de vista técnico, mas falta-lhes a alma e, sem isso, o que é durável na poesia, que é a capacidade de comunicar um ser que, em dado momento, sentiu e pensou uma relação com a vida e o real de um dado momento. Admito que não tenham essa ambição: ninguém é obrigado nem a ter alma nem a ter ambição. Mas não pode exigir grande coisa depois dessa abdicação.

 

Zunái - A maior parte desses jovens poetas segue uma poética dos anos 70. Refiro-me nomeadamente ao caso de Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge que começaram a publicar na mesma geração. Como foi essa época turbulenta, atravessada por uma poesia altamente comprometida politicamente? Como era possível resistir?

NJ - A poesia sobrevive de forma natural porque não está tão dependente da edição e do grande público como sucede com o romance. Os poetas que começam a publicar nos anos 70, como foi o meu caso, o do Joaquim Manuel Magalhães e o do João Miguel Fernandes Jorge, tinham um horizonte cosmopolita e uma abertura para zonas de interesse que iam além das fronteiras portuguesas - e falo das fronteiras políticas e culturais dessa época de ditadura. Curiosamente, isso permitia uma escrita mais livre e plena do que se tivéssemos sido condicionados por essa situação. Foi, por outro lado, um período de descoberta dos grandes caminhos de compreensão da própria linguagem poética: as novas teorias da literatura, a relação com a música e o cinema, ou a pintura, foram possibilidades inovadoras que permitiram que a mudança de linguagem, de formas e de temas se desse e um modo revolucionário, na linha do que um Herberto Helder, um Ruy Belo e um Jorge de Sena tinham iniciado na década de sessenta.

 

Zunái - Sente que o 25 de Abril e os anos que se seguiram a essa época vieram destruir a grande qualidade da poesia que se havia feito anteriormente?

NJ - Não falarei em destruição, dado que esse pós-25 de Abril não foi um deserto poético. Houve uma necessidade de adaptação às novas condições da criação, libertas já de imposições não tanto exteriores como interiores de censura; e não foi fácil ir ao encontro de uma poética em que a verdade e a exigência do ser se manifestassem abertamente. Um Al Berto terá sido o primeiro a consegui-lo plenamente. O que sucede é que não voltou a haver um sentido de «geração» - por muito discutível que a palavra seja - como sucedeu na poesia portuguesa até aos anos 60 e 70. As afirmações de poéticas são sobretudo individuais e individualistas, o que torna mais difícil uma proposta consequente de compreensão de uma emergência de novas poéticas. Por outro lado, fenômenos de tribalismo e de seita vêm complicar o êxito dessa compreensão, sendo irrisório o que se tem passado com a crítica de poesia nos últimos anos num jornal como o «Expresso», onde a venda de banha da cobra tem livre curso sem qualquer pudor.

 

Zunái - Na verdade, os jornais e revistas portugueses dão grande espaço à crítica da ficção. Nalguns casos, até, bastante duvidosa do ponto de vista da qualidade. Porém, nota-se uma quase ausência da crítica da poesia nos mídia portugueses. Concorda? E que razões podem ser encontradas para tal?

NJ - Há uma boa crítica de poesia na revista Relâmpago, e em publicações universitárias, para os happy few. É verdade que nos jornais praticamente desapareceu - tal como a crítica de ficção portuguesa: os romances recenseados, na sua esmagadora maioria, são traduções, e são quase sempre obras de nível muito menor as que são apresentadas, sobretudo quando se trata de americanos, como obras-primas absolutas. A crítica dominante está de cócoras perante a banalidade. As razões vêm do comércio em que a edição literária se transformou, e que privilegia a publicidade mais do que a compreensão. O que é interessante é que os critérios que servem para levar aos píncaros romances feitos na base do best-seller quando feitos na língua não de Shakespeare mas dos bas-fonds de Soho são os mesmos que servem para arrasar o mesmo produto quando traz a marca nacional. Já disse na altura devida o que tinha a dizer sobre o assunto, e devo dizer que o repito porque já não tenho condição, como diria o Jô Soares, para ter medo de ninguém.

 

Zunái - Para mim, o Nuno Júdice é, antes de tudo, um poeta. Qual é a sua opinião, enquanto leitor de poesia, do que se faz de melhor em poesia, quer em Portugal, quer na Europa?

NJ - Ultimamente tenho relido mais do lido, o que pode já conduzir a uma resposta. Julgo que hoje a poesia mais interessante vem da América Latina - de países como a Argentina, onde um Diário de poesia é uma referência fundamental na teoria e crítica poéticas, para além das traduções que publica, a Colômbia (Piedad Bonnet), a Venezuela (Eugénio Montejo) - da China, da língua árabe (posso referir Adonis), de países da zona ex-soviética, onde ainda recentemente descobri alguns notáveis poetas georgianos. Na Europa, sigo o que se vai publicando em Espanha, na Irlanda e na Inglaterra, onde me parece que vão surgindo linguagens novas e de qualidade. Em Portugal, se essa qualidade também existe, não há vozes emergentes com o sinal de uma ruptura e de uma inovação em relação a poéticas anteriores. No entanto, os princípios de século são sempre períodos complicados, como podemos ver no princípio do século XIX e do século XX. Pode ser que a segunda década deste século XXI nos traga outro Orpheu.

 

Zunái -  Sente-se tão à-vontade na poesia como na ficção e no teatro? O trabalho, no seu ritmo e na sua respiração, pede-lhe o mesmo?

NJ - São trabalhos diferentes, e que exigem disposições diversas. Claro que a poesia é o meu elemento natural; mas a ficção tem-se vindo a impor como uma outra forma de expressão em que encontro um outro universo, que é da minha memória, onde vou buscar os materiais que me permitem construir um retrato do país em que nasci, e dos tempos diversos que fui vivendo nas décadas que vão do fim da ditadura à democracia. Mas é também a sua história que me interessa, e alguns romances vão buscar a esse passado o horizonte necessário para construir uma ficção. No entanto, não enveredo nunca por uma ficção histórica, académica; é sobretudo o presente, o mundo actual, contemporâneo, que me interessa olhar e compreender.

 

Zunái - Li com atenção O anjo da tempestade, que me fascinou. Em parte, é um livro em que volta ao passado, mas a estrutura da obra é absolutamente espiralada, diria barroca, quase. Desassossega, faz o leitor saltar para espaços/tempos completamente diferentes, em nada segue a ficção histórica clássica. A todos os títulos, a técnica narrativa é original. Deu-lhe prazer esse jogo com o leitor? Diverte-se enquanto escreve? Ou gosta apenas de contar uma história?

NJ - Este jogo começou com um livro de que gosto muito, que é Por todos os séculos, e continuou com O enigma de Salomé. É uma vertigem de épocas e de personagens que saltam de um contexto para outro, do passado para o presente, num movimento que vai ao encontro do que aprendi com a ficção científica e as máquinas do tempo, embora estes livros nada tenham a ver com esse género. O que me interessa é transportar-me para o contacto com situações e sentimentos vividos em séculos anteriores, e que procuro recriar numa actualidade que lhes dá outra leitura e outra compreensão. É isso que me diverte - e se não me divertisse não teria escrito esses livros, dado que para mim a escrita é acima de tudo o prazer da invenção.

 

*

Leia também poemas (I e II) de Nuno Júdice.

*

 

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[ ZUNÁI- 2003 - 2008 ]

 

Par Rosario Duarte da Costa - Publié dans : Auteurs Lusophones... - Communauté : Les Grands Poètes
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