Lundi 28 septembre 2009 1 28 /09 /Sep /2009 14:43

1 de novembro...
Auteur:Antonio J.S. www.olhares.com


 

 

TÚLIPA




Podia ter nascido em New York, Londres, Paris ou Berlin. Podia ter  nascido em Madrid, Barcelona ou Oslo, talvez em Rio de Janeiro ou em Génova...Mas não, nasci em Lisboa. E, nascer em Lisboa dizem, é éclodir na mais linda cidade do mundo.
“Daqui” partiram os conquistadoes desbravar outras terras, aqui chegaram os Árabes em busca de termas e de um estilo de vida.


Aqui...

Em Lisboa- a grandeza de Portugal-, escorre o Tejo indo à procura de musas e, as sete colinas engendraram lendas infindas”.

Aqui, descem os outros para admirarem a cidade, a lê-la e descobri-la através dos seus monumentos, dos jardins e pavados incríveis. E, a luz abre-se sempre num jorro imperial, deixando os visitantes admirativos e contempladores. A luz brilha sempre para os outros...só para nós o céu se carrega de nuvens!

Detesto. Detesto todos aqueles que entram sempre no corpo da minha cidade, para a descobrirem, amarem, sem nos pedir licença...Isso desagrada-me um pouco!

 

 

Digo: nasci no eixo interno da cidade. No meio de uma ruela entre o Rato e as Cortes, numa ruazita estreita onde os pássaros se vinham acomodar um pouco e, eu dáva-lhes de comer na mão porque éramos quase da mesma família.

Víamos os passeantes passar. Ali, íam olhando as velhas lojas da rua caminhando ao som do bater dos próprios passos na calçada, velha, usada e triste!

Triste como  tempo, o tempo de então onde o sol jorrava sempre, sem nos deixar ver todos os defeitos que alteravam a nossa própria vida!

Que vida?

A do viver entre nós e nós, numa casa pequena onde o quarto nada mais era do que uma minúscula alcova e, o W.C. uma pia pequena asfixiada pelo tanto uso.

 

A vida...

A do pai escorria entre trabalho e trabalho, trazendo para nós um salário de miséria; a mãe mexia-se sempre a gritar connosco porque lhe destruíamos o trabalho de casa já feito, porque queríamos coisas que ela não nos podía dar.

Em sociedade a vida, ( que vida?),ela era reduzida a meia dúzia de pessoas quase sempre da família, sem férias de verão nem de inverno, sem viagens ao longo do país, nem ao estrangeiro, nem mesmo com a escola. Só uma ou ou saída à terra dos avós me dava a ilusão de uma enorme viagem! Seria?

E então?


Eu por ali divagava entre dias de sol e dias de vento, dias claros outros escuros, estações diferentes em todo o ano mas; ao divagar via que todos os contrários eram quase iguais. Então, era difícil escolher a parte perfeita num País imperfeito mesmo, na minha cidade.

Em casa ou lá fora, eu ouvia os ditos mesmo os não ditos. Não me apercebi logo que havia interditos era ainda pequena e, não compreendia.

Não compreendia? Ou não queria compreender?

 

Aprendi a falar como me ensinaram, na família, na escola, no meio dos passeios. Aprendi a falar! Nem sempre a dizer tudo o que roía cá fora ou por dentro, porque para dizer era preciso alento.

Aprendi a falar e ainda a calar, porque ao abrir a boca alguém me dizia: Tchtt...Tchtt...

Então eu calava e os outros gostavam porque eu obedecia a quem o queria. E, obedecendo não pude dizer, nem mesmo aprender a inteiramente dizer!

 

Nasci em Lisboa não em New York, Londres, Paris ou Berlin. Podia ter  nascido em Madrid, Barcelona ou Oslo, talvez em Rio de Janeiro ou em Génova...Mas, nasci em Lisboa!


Foi ali...
À borda o Tejo entre o céu azul e a terra verde...
Ali estava o mar, as rochas, penedos, com barcos à vela, enormes navios tão cheios de segredos catraias, fragatas...


Ao longe havia montanhas e, um Cristo Rei de braços abertos ao céu a pedir ajuda, mas ninguém o ouvia, nem o céu, nem o mar, nem as nuvens...

Ali, as colmeias de gente zubiam, zumbiam de um lado para o outro. Como se, não soubéssem qual lugar escolher para poderem existir.

E, o sol escorregava no meio das colmeias; as abelhas fugindo a trabalhar o mel para os dias futuros.


Que digam o tempo, o tempo em que eu vim desabrocharar a Lisboa.
E, digam a vida no Castelo, no Cais do Sodré, na Mouraria ou na Madragoa.


Se o tempo era lindo entre a luz e a sombra, os berros ouviam-se entre orelha e tímpanos, a pele franzia-se com os pelos de pé e, mesmo se ainda criança eu já tinha perdido a fé!


Nem na escola, nem na igreja, nem na família eu acreditava à força de me quererem fazer acreditar!


Velhos os meus pais, um pouco simplórios, distançiando-se um pouco do centro dos meus olhos.

Amava-os eu sei, obedecia-lhes também mas, o que guardo comigo não o digo a ninguém!

O tempo passava, eu ía cresçendo. O tempo fugindo eu ía avançando. E, ao avançar reaprendi a ler tudo o que antes não se podia dizer.


E lia, lia de noite e de dia, da madrugada à tardinha...
Lia o que estava escrito também o subentendido e, assim apurei melhor o ouvido!

Eu sei. Não pude estudar muito por falta de meios aqui em Lisboa não era possível. Fui à escola comercial para aprender uma profissão, assim o pássaro não voou, sentei-o na mão.

Podia ter nascido em New York, em Roma, Veneza, Tokio, Amesterdão...

Mas nasci em Lisboa!

E, nascer em Lisboa era viver quiéta e muda! Era passear na cidade sóbria, com a cara triste -como um ser qualquer num dia de enterro. Era não me mostrar como ser humano, do sexo feminino mas, avançar sempre e sem sôfrego à espera de um casamento qualquer, único meio diziam para poder salvar qualquer mulher.

E, nos dias mais tristes (ou bem nos mais lindos), caminhei sempre com a palavra na mão::É preçiso:

É preciso obedecer.
Obedecer a Deus, à Pátria, à família, ao futuro marido e, à futura família.
E Servir.
Servir Deus, a Pátria, a família, o futuro marido e,  futura família.
Obedecer e Servir, para Bem Ser e Bem Agir!

 

Um dia enamorei-me... De um belo rapaz pequeno e trigueiro simpático muito. Eramos dois irmãos, amantes, amigos ainda. Caminhámos juntinhos por toda a cidade, fazendo projectos e sonhando muito.

O tempo abria-se como uma flôr feliz dasabrochando na Primavera. Eram outros tempos e, outras vontades, acabavam-se os moldes criando-se novas felicidades.

A guerra acabava, vieram os soldados, mulheres e crianças, a gritar a todos muitas esperanças. Cravos levantados, papoilas aos ventos e olhos sorrindo para novos tempos. Vieram partidos, fatos coloridos, guitarras cantando ao céu e ao mar...

Aprendi a amar, a minha Lisboa da Praça do Comércio até à Madragoa. Mudei certamente, acreditando um pouco na nova vontade, queria descobrir a minha liberdade.


Salazar partiu, Caeteno também. Com os novos chefes o povo já não era de ninguém!

O tempo passou, estudei ainda trabalhando sempre. Tornei-me alguém, em vez da ninguém...

Tudo me sorria, o noivo, a cidade, toda a alegria de uma mocidade...

 

Mas o tempo passou.Do novo possível nada me ficou. Nem país, nem noivo, liberdade um pouco.

Perguntei ao tempo porque era ele louco?

Nem me respondeu. E, fiquei sózinha junto do meu pai e da minha mãezinha...

Vivi. E, vivendo lá me fui entretendo. Entre um País liberto, um trabalho de bem estar, o meu tempo passou e, eu sempre a nadar no oceano de um tempo a porvir...


Um dia o meu pai partiu. Chorei, agarrada à mãe...
Ficámos as duas totalmente nuas. A pouco e pouco, a dôr adoçou e, juntas continuámos a subir as escadas do tempo presente. Como se, a vida assim continuásse sempre.

Mas, um dia também, o tempo a chamou, como uma folha morta o tempo a levou...Chorei e, choro ainda a presença, a ausência, o medo da solidão...

Agora que estou só, ninguém me dá a mão!

Porquê?

Será que sou eu que não sabe ler, os gestos que os outros me fazem a mim ver?

E, choro acordando, com os olhos inchados de tanto chorar. Eu penso que amo mas, talvez seja eu que não saiba amar!

Rosario Duarte da Costa
Copyright
:18/02/05


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Par Rosario Duarte da Costa - Publié dans : Comptines! Lendas - Communauté : Caligrafias Poéticas!
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