Partager l'article ! Entrevista de Rui Veloso( extraida do sapo.pt): Rui Veloso, para aqueles/as que o apreciam! Não é um dos meus favoritos, deixo à apreciaç ...
Rui Veloso, para aqueles/as que o apreciam!
Não é um dos meus favoritos, deixo à apreciação dos leitores o conteudo desta entrevista.
Rosarion Duarte da Costa
por JOÃO CÉU E SILVA, PAULO SPRANGERHoje
Em dia de eleições legislativas não se pode reproduzir tudo o que Rui Veloso afirma sobre a política portuguesa, mas a repetição da "asfixia" e da "humildade" democráticas até à exaustão obriga o cantor a dizer que as suas canções não fogem a tal categoria. Tem sido notícia por sucessivos problemas de saúde, mas isso não lhe afectou a inspiração; pelo contrário, são muitas as melodias que só esperam por letras para o álbum de originais que deverá ver a luz do dia em 2011. Até lá, vai celebrar 30 anos de carreira
Primeiro, foi uma operação de urgência. Seguiu-se a malária. O que virá agora?
Mais uma operação para completar a primeira intervenção.
Até parece uma maldição...
Se houver, cá estarei para a ultrapassar.
Tem sido uma fase complicada da vida?
Eu estava a precisar de emagrecer…
Ao menos inspirou alguma canção?
Tenho composto bastante, mas já estava a fazê- -lo bem antes, e esta situação até me tem impedido um pouco. É difícil tocar na cama.
Estas dores não inspiraram uma letra?
Não, mas uma pessoa fica mais acordada para o futuro e mais capaz de tomar decisões. Não vou deixar coisas por fazer, até tenho uma ideia para fazer um disco novo de outra maneira.
E como vai ser esse novo disco?
Tenho muitas músicas, só faltam as letras, que espero que sejam do [Carlos] Tê na maioria, à excepção de uma, que será do Pedro Abrunhosa. Mas só vou fazer o disco lá para 2011 porque, primeiro, é tempo de celebrar 30 anos de carreira e queria aproveitar coisas já gravadas e fazer um disco de duetos.
Com quem quer fazer esses duetos?
Eu já fiz uns duetos com a Sara Tavares, a Mariza e a Katia Guerreiro. Já há tempos que queria muito cantar com a Mariza, tal como com a Maria Rita e a Nancy Vieira. Ainda estou a pensar, mas não queria muito ir para o fado.
O fado está de novo na moda!
No caso da Mariza, é mais do que isso, porque já cresceu para outros lados. Quanto ao fado tradicional, não há volta a dar nem tem muito para onde ir a não ser nestes novos caminhos, como há uns anos aconteceu com o Paco de Lucía, que levou o flamenco para outros lados!
Depois de ter havido um boom na música portuguesa não tem existido renovação?
Não é só em Portugal, porque também acontece lá fora. Essas rupturas são cíclicas - não sei se são geracionais - e depois há anos em que nada se passa. Os anos 80 foram muito vazios e artificiais, mas neste princípio de século há muito mais público e nunca se vendeu nem se ouviu tanta música.
Mas em Portugal não há novidades?
No fado até temos e com muita malta nova.
E na música popular? Há os The Gift...
The Gift é em inglês! Quanto a bandas, somos os mesmos. Os Xutos, eu…
Que comemoram 30 anos de carreira.
Acho que continuamos um pouco ao contrário do que seria importante para a nossa música, porque não temos que ter vergonha do que fazemos e até seria de bom-tom que as rádios e televisões apostassem mais na música portuguesa. Era importante que houvesse uma rádio ou um canal de TV só de música nacional.
O processo não tem de ser ao contrário, de a música ser forte para exigir um canal?
Não, o que se passa é que vivemos numa mediocridade instalada e de julgamento popular.
De empresários ou editores medíocres?
Do empregado de uma rádio ou TV que tem a decisão e que não aposta mais na música portuguesa. Farto-me de tocar pelo País fora e estão milhares e milhares de pessoas nos concertos! Há dias, em Cascais, eram umas 40 mil pessoas, vou a Cantanhede e tenho 20 mil, vou a Lousada e são 30 mil. Não há razão para que não se aposte no que se faz hoje e no que já foi feito para existirem referências culturais. Era obrigatório passar o Zeca Afonso na rádio, e isso não acontece.
Nem os da sua geração.
Nem a Mariza passa na rádio pública, ela que é actualmente, com o Cristiano Ronaldo, o símbolo de Portugal no mundo. A Mariza toca nas melhores salas do mundo e não passa na rádio que nós pagamos com impostos. Podem dizer que não há qualidade, mas eu digo taxativamente que a música portuguesa é muito mais criativa do que a espanhola ou a francesa. É o que fazem os ingleses, porque não são parvos, daí muitos em Portugal cantarem em inglês. Para quê?
Cantar em inglês é desnecessário para sobreviver?
Sobrevive-se muito pior, e eu sou um exemplo, pois tudo o que tenho foi ganho com o meu trabalho e só canto em português. Olhem para os Clã, o Boss AC... Eu quero ser reconhecido no meu país, quero lá saber que os ingleses gostem de mim!
Nunca sentiu falta da internacionalização?
Nenhuma, dá muito trabalho e gosto de ser um artista local. Quero ser um Local Hero, como dizia o Mark Knopfler, porque isso traz desafios. O que presta é o que os ingleses fazem, mesmo que seja música com letras horrorosas que, como soam bem, funcionam. Eu próprio não ligo às letras em inglês, só às do Bruce Springsteen, do Tom Waits, do Neil Young ou do Jackson Brown, tudo rapazinhos novos! Tenho muita relutância em cantar coisas que nada dizem.
Por isso é que quer as do Carlos Tê?
Como a Paixão ou Não Há Estrelas no Céu, por exemplo. Esta última é inexplicável, aquilo até bate nas crianças com três ou quatro anos.
Carlos Tê é incontornavelmente o grande letrista das canções de Rui Veloso?
Claro! Em dupla que ganha não se mexe.
Foi o que aconteceu ao Elton John e ao Bernie Taupin quando se separaram!
Exacto, só que fizeram tudo antes dessa separação. Nada do que o Elton John fez depois marcou mais do que esses primeiros tempos.
Quando compõe pressente o sucesso?
Não e nem podemos pensar nisso. Às vezes crê--se: "Isto ficou porreiro", mas não se acerta.
Há quem diga que é o cantor do regime?
Eu fui o único que no mesmo ano tocou para Mário Soares, Freitas do Amaral e para a UDP...
Os partidos tentam contratar o seu apoio?
Agora menos, porque precisam de pagar. Mas eu não toco para partidos, é para portugueses e quem me vai ver tanto pode ser do Benfica, do Sporting ou do Porto, não vejo a cor das pessoas. Vão lá para ouvir as minhas canções e do Tê e vão-se embora satisfeitos.
Creio que lhe dá mais prazer ter os do Sporting!
De maneira nenhuma. Eu gostava que o Sporting ganhasse um campeonato por uma questão de equilíbrio e de alternância democrática, só que têm de correr e marcar golos. Até gostava muito que o Braga ganhasse o campeonato, porque os pequenos também contam. Até nisso teria piada haver alternância democrática!
Tal como na política portuguesa?
Acredito muito na alternância - mesmo que este seja um momento complicado para acontecer - porque os políticos gostam muito de utilizar o termo democrático seja no que for. Agora temos a asfixia democrática, a humildade democrática... Tudo é democrático, como se a democracia não fosse uma coisa instituída. Parece que se levantam e dão logo um bom dia democrático.
É um músico democrático?
Com certeza, até canto umas cançõezinhas democráticas também e ando sempre numa zona democrática. Estou atento ao que se passa na política e conheço gente em todos os partidos.
Acompanhou a campanha eleitoral?
Sim, apesar de achar que há excesso de informação, pois estamos quase ao nível de saber as peúgas que os candidatos calçam! A campanha não me tem surpreendido, a não ser a volta que José Sócrates deu à imagem pública.
E o fenómeno do Bloco de Esquerda?
O Bloco de Esquerda é um partido de classe média revolucionária, que não faz mossa.
O mesmo acontece com o PCP...
Que tem muito a ver com a imagem do Jerónimo de Sousa, porque conforme for o líder assim será o partido. Este é um PC humanizado.
E que é muito diferente de Paulo Portas?
Ele tem razão em algumas coisas que diz.
Só nos falta Manuela Ferreira Leite!
Neste domingo, logo se verá a força das convicções e a maneira como as ideias passaram.
Já alguma vez duvidou do seu talento?
Muito, muito. Porque achava que o que fazia não prestava para nada mas também não sou uma pessoa que dê muito valor ao que faço, são canções. Não é uma coisa transcendente.
Todos os portugueses têm uma canção de Rui Veloso que os marcou na vida.
Todos nós temos canções que nos fazem recuar 30 anos e lembrar de um momento ou com quem se estava - a melhor coisa para nos lembrar uma mulher é uma canção.
Já é considerado uma instituição nacional.
Os portugueses gostam de mim a cantar, mas eu sou uma pessoa normal, ando na rua…
Sente falta de privacidade?
Sinto, muitas vezes.
Ficou conhecido como "o pai do rock português". Preferia ser o "pai dos blues"?
Tinha mais a ver comigo, só que o rock é mais abrangente - o blues é como o fado - e a maior parte dos portugueses não os ouve.
Até os seus heróis, Eric Clapton e B.B. King, também foram obrigados a mudar.
Sim, não é uma questão portuguesa, mas há uma diferença entre nós: é que eu componho todas as minhas músicas, e eles não. B.B. King é blues assumido mas também faz umas baladas mais comerciais para dar dinheiro e o Clapton andou sempre ao sabor das drogas e do que lhe iam compondo.
No Chico Fininho há uma referência à droga. Isso ainda existe na sua vida?
A droga? Não digo que, de vez em quando, não. Mas só produtos naturais...
A imprensa cor-de-rosa não o larga?
Não é verdade. Respeitam-me e não tenho razoes de queixa. Conhecem-me e sabem que não vale a pena chatear-me muito. Às vezes, há muita insistência, chateiam a Sofia Grilo - que é uma actriz muito boa e uma miúda bonita -, mas não me importo desde que não mintam.
Continua com a Sofia Grilo?
Eu continuo muito amigo dela, mas estou num momento mais… Com as doenças, não sei o que é que hei-de fazer à cabeça, e ela tem-me dado imenso apoio, tem sido uma mulher extraordinária. Nem sei se mereço isso.
Tem tempo para os filhos?
Não e é uma das coisas que mais lamento. A minha vida é muito incerta e há 30 anos que faço o contrário das outras pessoas, trabalho muito mais na altura em que estão todos de férias e aos fins-de-semana, quando descansam! Até para estar com os filhos é complicado porque ao fim--de-semana é quando toco mais.
Derniers Commentaires