Conta-me histórias!
“Os lindos sapatos rosa de
camurça”
Convidei a minha amiga, por estar farta de passear, de calcorrear
os
pavesados das ruas. Tomámos um
cházinho do Japão
e,
seguiu-se um grande silêncio. Sentia que ela esperava
alguma
coisa
mais além do chá e, dos “petits-fours”. O silêncio pesado,
havia
caído sobres
nós
duas.
De repente, ela olhou e disse-me:
- Agora, que estamos aqui sózinhas, longe da azáfama
quotidiana, da barulheira intensiva da cidade, podêmos falar
de
qualquer coisa de diferente e, descontraír um pouco? Os
dias
são
sempre uma lengalenga, uma
repetição fastidiosa. Não achas?
Sim, respondi, fazendo girar um raminho de
violetas entre os
dedos. Mas hoje estou distante. Nada tenho
para contar...
-
Entaladas nesse silêncio, originado pela falta de ideias disse-me:
lembras-te dos anos setenta?
Se me
lembro...mas, agora só me questiono sobre
ele. Ontem, estava
eu deitada pensei no que me ocorreu num certo mês de
Julho. Não sei
se
terá interesse, falar-te
disso. São coisas que se guardam só para si.
-Não sejas parva, partilha!
Após uns segundos de longa pausa,
respondi-lhe: Olha, vou
contar-te o que me aconteçeu mas,
não comeces a rir. Porque foi
um erro e, os erros só entram na nossa consciência, muitos anos
depois!
-
Então começa!
Ouve.
Tinha eu uns vinte anos e acabado de ser mãe. Regressava
a
Portugal, após um ano de estadia
em França. Feliz pelo regresso.
Felicíssima, por ter sido
mãe. E, no meio dessa felicidade encontrei numa loja “chic”um conjunto “sapatos e cinto em camurça côr
de
rosa velho, colar e pulseira,” de metal magníficos. O
conjunto
era
caríssimo para as minhas
possibilidades financeiras globais,
mesmo
para um empregado vulgar. Custava o conjunto mais de
1500
francos, naquele tempo (em Portugal, para obter o valor,
bastaria multiplicares por 35 vezes -mais ou menos-, para obteres
o
preço em escudos)!
E,
tentada, comprei-o. Enfeitei-me logo com toda essa cangalha.
Primeiro vesti umas calças brancas “boca de sino” larguíssimas,
com
arabescos azeitonados de pintura estilo Picasso, uma túnica
de
rede transparente linda e, assim cheguei a Lisboa, com um chapéuzinho na cabeça e, o meu bébé nos braços.
-Então, qual é o problema?!
Deixa-me continuar. Ao chegar a Portugal toda a gente me olhava,
apreciando-me os pés, os braços entrelaçados com a pulseira e o
colar
de filigrana, que tinham integradas pedras grandes rosa
escuro
e, o cinto largo em camurça, cuja fivela era uma grande
borboleta incrustada de pedras. Uma relíquia. Mesmo a família e amigos ficaram pasmados!
E,
lá por
lá andei calcorreando
dias e dias, entre Lisboa, Estoril,
Cascais e Sintra, sempre contente da vida, acabando por não
abandonar esses enfeites durante pelo menos uma semana.
Porém, um dia, uma amiga pediu-me para ensaiar os meus lindos sapatos, colar e pulseira e, mesmo o cinto. Tão formosa ela
ficou, dizendo-me: “oh filha, só em França é que há coisas assim.
Aqui em Portugal tudo é mísero. Mesmo no Chiado, no Grandela
ou, na Loja das Meias. E, ao dizer isto, tirou o sapato côr des
rosa
com carinho, olhou-o por cima e, por baixo , com
alegria.
Mas, de repente gritou: És uma mentirosa, dizes não importa o
quê.
Está escrito por dentro
:
“Made in Portugal”.
Fiquei
espantada. Não, eu comprei-os em Paris disse-lho. Em
Paris!
Peguei nos sapatos, procurei ver o que ela me disse e, por
dentro, justamente por baixo do nome da grande marca françesa,
estava
escrito em letras douradas minúsculas,
“Fabricado em Portugal “em inglês.
Então,
viéram-me as lágrimas aos olhos.
Tinha gasto tanto
dinheiro e, era feito em Portugal?!
Foi
assim, que realizei ter muito mal gasto o dinheiro. Porque em
Portugal eu conhecia boas sapatarias, onde o preço seria muito
mais
baixo! Desperdicei o dinheiro. Desperdicei a imagem. E, já
nem
poderia dizer que tudo aquilo era de “grande classe” françesa!
-
Olha, eram os anos setenta. A altura em que cobiçávamos tudo o
que era estrangeiro. Se, o que
dizes se refere àquele cinto que
ainda ali tens guardado tantos
anos depois, nada perdês-te.
Durou-te mais de trinta anos.
Não?
Sim. Mas para o poder encarar,
tive que lhe mudar a côr,
pintando-o de
preto!
Rosario duarte da
Costa
Copyright
29/03/2011
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