La machine à faire des espagnols
L'autre jour, lorsque j'ai écrit un article sur V.H.M., j'ai tenté
d'introduire ces reportages sur lui mais hélas, chaque fois que je
voulais enregistrer le tout, je tombais en panne.
C'est pourquoi, je les mets en ligne pour tous ceux qui cherchent à
mieux le percevoir car, actuellement aux USA, l'auteur ne cessera certainement pas de nous surprendre!
Bonne lecture!
Rosario Duarte da Costa
Copyright
13/05/2011
L'apocalypse des travailleurs
Entrevista a valter hugo mãe – Autor de «o nosso reino»
Posted on 28/04/2011 by ruiazeredo| Deixe o seu comentário
valter hugo mãe, poeta,
editor e agora romancista (esta entrevista foi inicialmente publicada em O Comércio do Porto a 5 de Dezembro de 2004), lançou recentemente a sua estreia na prosa, o
nosso reino (Temas e Debates) e quase em simultâneo deixou as quasi, editora famalicense da qual era sócio.
Cedências editoriais a uma linha mais “popularista” levaram-no a procurar novos rumos e agora não disfarça o entusiasmo pela prosa, depois de anos dedicados em exclusivo à poesia. Para trás fica
a sua ligação a uma editora que apostou na qualidade e cresceu longe das grandes cidades.
O nosso reino, que roça o surrealismo, leva-nos a um mundo rural onde a religião e Deus impõem a sua força e poder a um crédulo miúdo de oito anos
(Nota: o nosso reino foi reeditado em 2011 pela Alfaguara, sendo assim a sua terceira edição em três editoras distintas – antes tinha saído na Temas & Debate e na
QuidNovi.)
Neste seu
primeiro romance a morte e a religião são omnipresentes. Porquê?
Fiz essa opção por natureza. Quase
tudo no livro foi encontrado por acaso. Comecei a escrever o livro de surpresa, não estava sequer à espera de escrever um romance. É um bocado o que se passou sempre com os meus livros de poesia.
De repente estava a escrever um livro de poesia e não apenas um poema. Desta vez eu tinha uma frase – provavelmente estava anotada para vir a ser um verso –, a primeira do livro, (“o homem mais
triste do mundo”) e que me deu a ideia de procurar esse indivíduo, de saber quem seria. E as coisas surgiram um bocado umas a partir das outras e sem dar muito conta disso estava dentro de um
ambiente religioso, a fazer considerações sobre as questões da fé e do transcendente, sobretudo do esperar alguma coisa de que não existe prova, de que não existe uma garantia. E o mundo da
religião é também feito para a crença no impossível, no inexistente. O livro é todo à volta do que há e do que não há e do que se pensa ou do que se quer que exista.
Tem uma imagem
da Igreja tenebrosa e obscura?
Tenho tendência para acreditar que
existe alguma coisa. A história do Cristo é uma história tão incrível, tudo o que a Bíblia conta é tão incrível, que tenho tendência para acreditar que seria impossível ser inventada. A realidade
ultrapassa sempre a ficção. Tenho tendência para acreditar que aquilo que ali está em boa parte é verdade. Por isso tenho uma relação, sem dúvida, com questões religiosas de alguém que tem a
tendência para acreditar. Mas tenho ao mesmo tempo alguma dificuldade em lidar com o sistema operativo da religião. Não tenho reconhecido em muitos padres uma autoridade moral e espiritual que me
convença. Dos poucos padres com os quais estive mais perto todos me frustaram, ou porque entram em actividades políticas e impingem às pessoas programas políticos, ou porque como pessoas são
seres intratáveis, antipáticos. Há sempre qualquer coisa… Até hoje não conheci um padre que me convencesse. Para ser um líder espiritual precisa de ser alguém profundamente inteligente, porque um
indivíduo que está em cima de um púlpito a tentar dirigir a vida dos outros tem de saber muito bem o que é bom para os outros e por isso qualquer opção ou conselho que esteja a dar tem de ser
muito bem fundamentado. Infelizmente, acho que a inteligência não tem sido muito procurada quando se abrem concursos para padres.
Noto alguma
desilusão não com a Igreja em si, mas com quem a habita.
Sim, um bocado como se passa no
romance. O padre do romance diz que a igreja é muito antiga e muito grande e é impossível conhecer todos os padres que a habitam. Também tenho certas dúvidas sobre a pertinência de haver uma
hierarquia na Igreja. O papa, depois os bispos, os cardeais, uns mandam nos outros, até ao soldado raso, que acaba por mandar na paróquia. Parece-me que seria mais lógico que a igreja funcionasse
como um clube de amigos, sistema integrado em que toda a gente pudesse participar activamente no que é dito e decidido dentro daquela casa. E se o sistema já de si pode ser duvidoso, se for posto
em prática por pessoas que, como todos nós, têm problemas e carências a todos os níveis, leva-me a acreditar que a melhor forma de ser religioso ou ter fé em alguma coisa é ficarmos sossegadinhos
com as nossas convicções e fazer as leituras que devemos fazer.
O temor que o
protagonista tem em relação ao padre da aldeia é fruto de experiência pessoal?
Não. Tentei fazer com que o romance
não tenha absolutamente nada de autobiográfico. Claro que fui eu que o escrevi, há-de haver coisas que são minhas, coincidem com ideias minhas. Imaginemos se eu tivesse tido uma tia que é boa em
matemática, como acontece com a tia do miúdo no romance, em vez da tia do miúdo do romance ser boa em matemática era boa a geografia. Tentei fazer com que as coisas não coincidissem em absoluto
com nada que se passou comigo. Há uma coisa ou outra. Em relação ao padre, nunca me apareceu nenhum a bater. Quando era miúdo – costumava ir à missa com os meus pais – nunca nenhum padre me
prestou alguma atenção. Ou seja, os padres também têm a tendência, pelo menos os que eu vi, para ver as crianças e os miúdos como uma espécie de aborrecimento, de barulho de fundo. “Tens de te
portar bem na igreja, não faças barulho.” Não é preciso pôr os miúdos a cantar e dançar, mas os padres deviam suscitar os miúdos para a conversa, porque muitas vezes estão a esconder coisas, a
passar por coisas e a passar por dúvidas e o padre poderia ser a melhor pessoa para impedir que se agrave. Nunca tive problemas, mas também nunca senti acompanhamento por padre nenhum. Das poucas
vezes que me confessei quando era miúdo senti que estava a fazê-lo para uma máquina. Não estabeleci diálogo nenhum. Eu dizia que tinha chamado nomes ao meu irmão e ele dizia “reza três
avé-marias”. Era quase como pôr uma moeda numa máquina e da máquina tirava um ovinho com a sina ou coisa do estilo.
Será por isso
que as pessoas estão mais afastadas da Igreja, enquanto edifício?
Sem dúvida. As pessoas não conseguem
manter fidelidade a uma parede e a igreja neste momento é uma parede, pelo facto de não existir diálogo, pelo facto da eucaristia ser, sobretudo, um evento quase espectacular, onde o público não
intervém, fica passivo a ouvir as maiores barbaridades que os padres dizem nos sermões. Lembro-me de ter ido a um casamento em que um padre dizia que não havia problema nenhum em a mulher
obedecer piamente ao homem. Se ela gostasse muito dele e ele gostasse muito dela, porque não haveria de obedecer ao homem? Essas coisas fazem-me mal. Um senhor, de cinquenta e tal anos que nem
sequer é casado, ou pelo menos não devia, estar ali tão sapiente sobre o que o homem e uma mulher devem fazer numa relação… Estas posturas são cada vez mais obsoletas. Não é que algum dia tenham
sido modernas, o que está errado, está errado. É tão evidente que existem essas deficiências de postura que as pessoas acabam por se fartar. As mulheres hoje em dia já pensam, acho que a Igreja
não acredita muito nisso.
“Os líricos
românticos acham que os artistas têm de ter uma panca”
O romance
decorre antes do 25 de Abril, mas também poderia ser deslocado para a actualidade de alguns meios rurais.
No meu livro tudo é muito exagerado
porque é uma criança que está a contá-lo.
Nunca devemos acreditar piamente no que o narrador está a dizer. Eu, enquanto leitor deste livro, duvido sempre das intenções do miúdo. Tive sempre alguma ligação com a questão de África (nasci
em Angola) e ao longo da minha vida fui conhecendo algumas pessoas que estiveram em África. Como acontece em todas as guerras e conflitos, existe um enorme mito do como foi e como era e muitas
vezes as pessoas tornavam as coisas mais agressivas. Contavam-me coisas pirotécnicas, absolutamente absurdas, que só por estupidez é que achariam que os outros iam acreditar.
Recorreu a uma
criança para poder escrever exageros mais livremente?
A criança tem várias utilizações. O
livro, todo ele, é uma interpelação à figura de Deus, é uma espécie de encosto de Deus à parede, a ver se ele responde. Acho que a questão de as crianças serem puras e ingénuas e merecerem toda a
atenção, faz com que esse pedido desenfreado por uma manifestação divina seja mais eloquente e mais passível de ser atendido. Como queria extrapolar, exagerar e criar universos fantásticos, a
ingenuidade de um miúdo é passível de me dar até um surrealismo, que é uma das possibilidades de leitura do romance.
Foi-lhe difícil
meter-se dentro da mente de uma criança?
Não. Tive uma infância muito
interessante e especial. O mais interessante era a minha própria cabeça, era muito curioso e tinha a mania de ouvir as conversas das outras pessoas. A minha curiosidade era de ouvir as coisas e
fazer as lógicas e as ligações. Era um miúdo muito convencido com as minhas verdades. O que fiz no fundo foi transformar esse miúdo e fazê-lo sofrer o que eu sofria com 4 ou 5 anos – era de uma
credibilidade incrível.
Nunca pensou em
aproveitar esses pensamentos de criança para fazer livros infantis?
Toda a gente me diz isso. Este livro
tem duas coisas: está tão ligado aos livros para miúdos como a dada altura poderá estar ligado aos livros fantásticos e filmes de terror. Eu vou passar pelas duas coisas. Já tenho estado a
escrever outras coisas e tenho intenção de escrever puramente aventura, infanto-juvenil, terror. Algumas das coisas que estou a escrever já estão a aflorar e explorar esses universos. Sempre fui
fascinado pela fantasia em todos os seus sentidos, desde os filmes de animação de criação de mundos, seres espectaculares, bichos nas profundezas do mar, ou no interior da Terra. Sempre adorei
esses filmes de animação com a fantasia levada ao extremo do gore. O que me decidi finalmente foi começar a contar histórias.
Porque escreve
em minúsculas?
Escrevo assim porque num texto todas as palavras têm a mesma dignidade, estão todas em pé de igualdade e depois o leitor é que lhes confere importância.
É dos poucos
autores portugueses com página na net.
Tenho um site que é feito por um
amigo. As pessoas têm o preconceito que o escritor tem de ser muito discretozinho, não aparecer, as entrevistas têm de ser muito sérias. O escritor tem de ser um bicho raro. É um preconceito dos
líricos românticos que acham que a malta das artes e os artistas têm de ter uma panca muito grande.
“São as
raparigas cor-de-rosa que estão a vender livros e isso assusta-me”
Não acha que há
lançamentos literários a mais em Portugal?
Os livros nunca são demais se forem
bons.
Ou há poucos
leitores no nosso país?…
Os leitores é uma coisa que se faz.
Se houver livros as pessoas acabam por aparecer. A questão é que se edita muito lixo, se calhar por causa da necessidade de popularizar um bocado a coisa. O problema é que as pessoas não estão a
comprar os melhores livros. É uma pena que o José Luís Peixoto ainda não tenha entrado nos hipermercados. Como é que ele ainda não consegue estar ao lado dos livros da Margarida Rebelo
Pinto? Por mais popular que ele seja (e é), a Margarida Rebelo Pinto, a Susanna Tamaro, e todas estas raparigas cor-de-rosa pertencem a um mundo muito mais popular. E são elas que estão a vender
livros, a ganhar dinheiro, a ficar famosas e isso assusta-me um bocado. A Margarida Rebelo Pinto no Sei Lá tem uma personagem que a dada altura parece muito importante e depois
desaparece aí na página 40. Esqueceu-se da personagem… Ela que seja feliz, mas preferia que o José Luís Peixoto vendesse 200 mil exemplares e que a Margarida vendesse três mil.
Mas a literatura
light não pode servir para habituar as pessoas a ler?
Pode. Algumas daí passam para outro
lado, têm um prazer enorme a ler e querem mais e vão buscar o… Paulo Coelho (sorriso). Pode ser que depois consigam abrir um bocado os olhos. Algumas já lêem o Equador (de Miguel Sousa
Tavares). Mas depois já podem chegar a uma coisa… melhor.
“A poesia é
uma coisa para meia dúzia de freaks”
Agora que
experimentou a prosa, a poesia foi posta de parte?
Escrevo sempre poesia e vou ser
sempre poeta, o que acontece é que já tenho nove livros de poesia, já errei em alguns. Os meus primeiros livros eram muito maus, preferia não os ter escrito. De momento escrevo um poema e deixo-o
de lado, fascina-me a prosa. A poesia é quase um exercício de abandonar as pessoas, muito autista. Na prosa, estou a fazer o contrário, chamo as pessoas para entrarem nos livros,
sinto-me mais acompanhado e comunicativo.
Continua a
escrever poesia?
Vou continuar a escrever mas decidi que em 2005 não publico poesia. Tenho publicado muita poesia e acho que o mundo tão cedo não precisa de poesia minha.
Não se sente
frustrado por só agora muita gente passar a reparar em si?
Sim, mas eu não estava iludido. A
poesia é realmente uma coisa para meia dúzia de freaks, para gente muito estranha. Não é violento que as pessoas agora me conheçam pela prosa.
Está satisfeito
com este romance?
O facto de ter feito uns livros de poesia ao princípio mauzinhos permitiu-me agora fazer um romance do qual não me vou envergonhar. As pessoas têm dito que é excepcional, têm
adorado. Acho também que o que acontece neste livro, e não acontecia na poesia, é que as minhas intenções são mais claras. A poesia é mais abstracta, mais resistente ao leitor e muita gente está
fundamentalmente a entender o que quero, o que digo. Os meus amigos que compravam os meus livros por simpatia agora dizem: “Então o valter afinal é isto, então como escritor diz estas
coisas, já entendo.” O livro veio fazer uma luz sobre as minhas intenções literárias.
“As quasi
complicaram-se, isso é verdade, é um projecto cada vez mais complexo”
Porque resolveu
editar “o nosso reino” na Temas & Debates e não na editora da qual era sócio na altura, as edições quasi?
Porque é muito confrangedor editar
nas quasi um livro meu e eventualmente ser colocado numa posição em que o tenho de promover. O que acontecia é que os livros que editei na quasi não os promovia. Os livros seguiam para os
críticos no meio dos outros todos e depois era capaz de entrar em contacto com um ou outro crítico para falar de um ou outro livro mas nunca falaria do meu. Era muito interessante: podia fazer as
capas, podia fazer o livro no dia em que me apetecesse, a tipografia por consideração à minha pessoa imprimia o livro rapidíssimo. Era tudo muito bonito, mas efectivamente era muito mau em termos
de promoção e divulgação. Isto também passa pelo facto de ter uma consideração muito grande pela colecção da Temas e Debates, a Lusografias – gosto muito do trabalho da Maria do Rosário Pereira.
E a prova de que o efeito tem sido outro é que o livro tem chegado a muitos mais lugares, a muito mais gente, porque ainda existe a Ana Pereirinha que faz os contactos promocionais todos e diz a
toda a gente que é “muito bom, muito bom, muito bom” e as pessoas ficam convencidas de que pelo menos vale a pena ir ver o que é.
Falou nas quasi.
Há dias soube-se da sua saída como sócio da editora. A que se deveu essa partida?
Se calhar um bocado por gostar de
estrear. Estreei como editor, estive cinco anos como editor e agora vou correr riscos. Quer dizer… nas quasi corremos riscos. Montar uma editora em Famalicão, editar montanhas de poetas, ser
apreciado por uns e odiado por outros, mexer com a consciência das pessoas foi um risco. Mas bem sucedido, porque as quasi em termos comerciais se viabilizaram. Em última análise é a prova que o
projecto é válido. No que respeita aos cinco anos que lá passei valeu mesmo a pena. Neste momento gostava de me dedicar mais à escrita. Pode surgir uma ou outra proposta para alguma ligação
para outras editoras. Pode ser. Não descarto a hipótese de continuar ligado ao mundo da edição, que era o meu trabalho na quasi, mas nunca a nível de editor/empresário. Nas quasi tinha de reunir
com contabilistas, bancos, e aturar credores e fornecedores e pedir dinheiro aos devedores. Torna-se muito complicado e passou o meu tempo ali e quero começar de novo.
Mas acha que as
quasi cresceram de mais e se desvirtuaram? Há algum descontentamento?
Não, não. As quasi complicaram-se,
isso é verdade, é um projecto cada vez mais complexo. Não se desvirtuou, foi-se adaptando. De início, editávamos alguns livros e por isso precisávamos de algum dinheiro. Passado algum tempo
passámos a editar muitos livros de poesia e passámos a precisar de muito dinheiro e isso fez com que em termos de critérios tenhamos sentido a necessidade de abrir um pouco mais os nossos
horizontes, os nossos leques de autores e tudo isso. Tentámos sempre não fazer grandes concessões em relação à qualidade mas por vezes tivemos a necessidade de entrar em domínios mais populares,
de mais fácil acesso ao público. E isso, na minha perspectiva, foi sempre motivado pela vontade que eu tinha de investir em gente que eu sabia que não ia vender muito. Fico um bocado curioso por
saber o que o Jorge (Reis-Sá) vai fazer agora, mas sei que no imediato vai seguir o que estava a ser feito. Mas depois… será a imagem dele que ficará. A minha tem sobretudo a ver com estes cinco
anos.
Acha que vai ser
uma editora mais comercial?
…é possível.
Foi por isso que
saiu?
Eu aqui cheio de rodeios e rodeios… Não sei, não sei. Pode ficar mais comercial até porque a crise tem obrigado a que todas as editoras tenham uma postura mais aberta e popular. E as
quasi se quiserem subsistir com alguma simpatia e com ambiente agradável provavelmente vão ter de continuar com uma política, não digo popularista, mas com momentos espontâneos de
popularidade.
Achava que o
ideal era encerrar um ciclo e fechar a editora?
Não! Mesmo que na pior das hipóteses
o Jorge arrase com a editora e passe a editar as coisas mais horríveis, o meu nome esteve ali apenas nos primeiros cinco anos, o resto não teve nada a ver comigo. Espero que ele não faça isso,
sei que ele não vai fazer, tenho confiança, vai correr tudo bem. Inclusive é possível que participe numa ou outra coisa das quasi. Mas sempre muito como outsider. Faz-me um bocado de
aflição as pessoas que ficam ligadas às coisas que criaram e que depois não gostam que elas mudem. Não me importo nada. Se as quasi virarem uma editora de livros pornográficos, óptimo. Se
calhar até compro alguns ou espero que o Jorge me mande alguns (risos).
“Tivemos
facilidade. Achavam todos muito engraçado uma editora em Famalicão”
As quasi são a
prova de que numa terra como Famalicão é possível criar um projecto rentável na área cultural?
As quasi são a prova de que se as
pessoas tabelarem por cima, lidarem com a qualidade, com aquilo que é reconhecido (seja no norte, sul, este ou oeste), o projecto diz respeito a toda a gente, diz respeito ao país. As quasi
tornaram-se numa editora nacional porque os livros que editaram são de carácter nacional. Quando eu entrei (há cinco anos) e profissionalizámos a editora e criámos a empresa foi ponto assente que
as quasi estariam em Famalicão, mas seriam de Portugal. Então, com tudo quanto poderia passar pela pieguice do local, do pedido do amigo da porta do lado, nós tentámos ser implacáveis. Se
for bom entras se não for… nem que seja a vizinha da porta de cima, nem que apareça de soutien à janela. Acho que as quasi servem de prova para esse tipo de esforço do que numa
determinada localidade se pode fazer para desenvolver um projecto que diga respeito a toda a gente. E por isso de início começámos logo a seduzir o António Ramos Rosa, o Eugénio Lisboa, os
herdeiros do José Régio e o José Luís Peixoto.
Sentiram mais
dificuldades por serem da periferia?
Tivemos facilidade, porque
chegávamos a qualquer lado e diziam: “Ahh, aqueles rapazes tão simpáticos de Famalicão. Imaginem uma editora em Famalicão’. Achavam todos muito engraçado. E de engraçado em engraçado arranjávamos
tudo. Depois editávamos as pessoas de quem gostávamos e essa energia de aparecermos perante alguém como admiradores passava imediatamente. E desde seduzir do Mário Soares ao Eduardo Prado
Coelho foi muito fácil. Por ser de Famalicão acharam que era um projecto descentralizador e quiseram participar. Acho que se calhar o segredo neste momento está em sedear uma coisa qualquer em
Freixo-de-Espada-à-Cinta e falar com o Prado Coelho (risos).
Quais foram os
momentos mais marcantes do tempo que passou nas quasi?
A 11ª edição de Poemas de Deus e
do Diabo, do José Régio, que estava esgotado há vinte anos e que só nós pudemos reeditar. Fiquei deslumbrado. O termos inventado o livro de letras do Caetano Veloso, que só passado um ano
saiu no Brasil. Um livro que já tinha sido pedido por editoras de todo o mundo. Nós perguntámos e ele disse que sim e perguntámos outra vez e ele disse que sim. Editámos a Adriana Calcanhotto, um
livro que ainda não existe no Brasil. Quando fizemos uma tournée com o Mário Soares e ele disponibilizou-se para apresentar a obra em Famalicão, Porto e Lisboa. Aceitou que em Lisboa
fosse o Freitas do Amaral a apresentar o livro. Fomos jantar lá com o Freitas do Amaral, que foi a primeira vez que entrou na casa dele. Foi um momento histórico. Editámos um livro do Mark
Kozelek (n.d.r. líder do grupo Red House Painters), que é o único a nível mundial. Os americanos e ingleses nem conseguem acreditar que ele tem um livro editado em Portugal.
(Entrevista
realizada em Dezembro 2004
In: http://portalivros.wordpress.com
Le
remords de Baltasar Serapião
www.publico.pt
de fazer espanhóis
valter hugo mãe não quer ser neto de Salazar
20.01.2010 -
Raquel Ribeiro
Todos somos "filhos de alguém que, em algum momento, deixou passar o regime", explica valter hugo mãe. No novo romance, "a máquina de fazer espanhóis", o escritor deixa, por instantes, as
mulheres, para entrar na progressiva degradação do corpo de um homem velho. Idosos em lares, a ausência do pai, o fascismo e a terceira idade. Está tudo aqui: o corpo de Portugal em
ruínas.
valter hugo
mãe regressa com um novo romance, "a máquina de fazer espanhóis", numa nova editora, a Objectiva (com a chancela Alfaguara), deixando para trás Maria do Rosário Pedreira, que o revelou em 2004, e
Ana Pereirinha, com quem publicou os seus três romances e ao lado de quem venceu um prémio José Saramago em 2007. Teve uma crise de choro quando percebeu que mudar de editora estava iminente,
"andei uns dias a fazer um qualquer luto". Tomou uma decisão de risco por sentir que era necessário colocar-se "nas mãos de pessoas diferentes, e que ajudem a perspectivar o mundo de um modo
diferente". valter quis pôr-se em crise para "repensar e abalar alguns conceitos prévios". Como neste livro, sobre a terceira idade, os vários senhores Silva de Portugal e um lar de idosos
subversivos. "Gosto da noção de risco, de alguém entrar na minha vida e destrambelhar as minhas convicções."
Há alguém que,
a dada altura, sai da vida do escritor e igualmente abala as suas convicções. "a máquina de fazer espanhóis" é dedicado ao pai de valter hugo mãe, "que não viveu a terceira idade". Numa nota
final, o autor explica que o seu pai "sempre disse que morreria de um cancro antes da terceira idade": "eu achava que o meu pai era maluco". Este livro é um "e se" dessa velhice, e da velhice de
valter também, explica. "Parece que estou a culpar o meu pai deste livro, não é? Este livro manifestamente fez-me sofrer um bocadinho. Mas depois de estas coisas [serem] transformadas em
literatura, a minha vida fica mais ligeira. Há um lado terapêutico" Está à procura de uma salvação. Ao dedicar o livro ao pai, culpo-a "de todos estes pensamentos."
Passaram dez
anos. Durante muito tempo, o pai não foi tema da sua literatura, não esteve lá. Esteve a mãe, estiveram muitas mulheres. "o apocalipse dos trabalhadores", por exemplo, "é um livro profundamente
feminino, no sentido em que é uma tentativa de chegar à percepção feminina do mundo, à dignidade feminina, e por isso é um exercício radicalmente diferente deste". Talvez porque dez anos sejam o
fechar de um ciclo, algo parecia definir-se "agora como nunca" e o tema pôde, então, impor-se. "Sem que fosse demasiado penoso para mim, ou intrusivo para o meu pai. E sobretudo para que valesse
a pena para a literatura".
Imaginar uma
velhice que não se teve e a que não se assistiu "não foi mexer em nada de novo", uma vez que todas as histórias, por mais autobiográficas, são feitas de uma "intuitiva imaginação". "A pesquisa",
explica, "é o cúmulo da minha vida, é toda esta acumulação que se chama valter hugo mãe, ou que se chama valter hugo alves pimenta de lemos, que as pessoas conhecem como valter hugo mãe." Por
isso, entra nessa velhice supondo-se nela, "enfim, tentando entender o ser humano de um modo universal". Todos somos "um bocadinho de todos os homens." Porque, como no romance, todos somos
"Silva".
Viver contra o
aluimento do corpo
Vivemos num
tempo em que ser jovem está na moda. "Admiramos profundamente as pessoas que não aparentam a sua idade", nota valter. Por exemplo: "Gostamos muito da Madonna porque aos 50 anos parece ter 35." E,
no entanto, abre-se cada vez mais "um fosso entre as pessoas que poderíamos considerar no activo e as pessoas que, pelo peso da idade, se vão entregando a um conforto" - os velhos. Estamos
irremediavelmente "mais distantes uns dos outros, como se fôssemos populações de diferentes planetas, de diferentes sociedades".
Isto
assusta-o: a geração que hoje tem 30 ou 40 anos "vai ser muito especial quando chegar a velha, porque muito rarefeita". Somos filhos únicos, ou temos apenas um irmão, "vamos chegar mais sozinhos
à terceira idade, vamos ser radicalmente menos, entregues, cada vez mais, à nossa própria sorte". Se não houver uma cultura que perceba os "mecanismos sociais de protecção da terceira idade,
arriscamo-nos a chegar a velhos e termos uma velhice muito menos confortável, e até substancialmente aterradora", argumenta. Para valter, há toda "uma política ou uma ideologia acerca da terceira
idade que é urgente ser atendida, para que isso possa resultar numa consciência social que perdure até aos nossos tempos de velhice." Há um longo caminho a percorrer: ainda temos "demasiados
problemas com lares", ainda andamos "à procura da definição dos direitos de um cidadão que necessita de assistência", não sabemos "o que exigir a um lar, com que dinheiro se faz um lar, e onde o
vamos buscar".
Neste romance,
os idosos vão habitando o lar que subversivamente chamam de "feliz idade", aceitando morrer "violentamente devagar", numa luta diária contra o corpo. O inimigo do homem que lentamente se degrada
é o seu próprio corpo, lê-se, "porque é o corpo que nos ataca. estamos finalmente perante o mais terrível dos animais, o nosso próprio bicho, o bicho que somos". Esta é a imagem da velhice como o
"cérebro que alui corpo abaixo". Dá a sensação de que "aluímos para dentro". Perdemos os alicerces. Ruímos.
E apesar dessa
degradação física, há uma sustentação moral nestes homens e mulheres. Esta é uma história triste e trágica, mas há um fino humor que passa pelo texto. Se a obra anterior era um apocalipse, esta é
uma rebelião dos velhos. A dada altura, diz-se no livro: "não podemos ficar velhos e vulneráveis a todas as coisas, temos de nos rebelar aqui e acolá". Para valter, é preciso que o mundo perceba
que estes velhos ainda são ou podem ser perigosos.
Isto é uma
"incitação à luta". "Todos precisamos de estar em permanente actividade, permanente participação social. Há uma reclamação constante que nos compete. Se não dissermos que precisamos de alguma
coisa, as pessoas não vão perceber. E neste livro há um piropo às pessoas mais velhas para que percebam a sua componente ainda perigosa". Estes idosos são subversivos, "ainda contam, ainda
participam". "Gosto de acreditar que as pessoas podem ser acordadas para uma participação, para decidirem. Precisamos disso. Precisamos dessa vontade de as pessoas se ligarem, de funcionarem como
um colectivo".
Fascismo dos
bons homens
A ausência de
colectivo poderá ser explicada pelo legado do fascismo na sociedade portuguesa. E, no entanto, o escritor escolhe colocar na mesma frase a palavra "fascismo", que tem uma "carga terrível",
admite, e a expressão "bons homens". "Antes do 25 de Abril", explica valter, "uns eram fascistas, outros não. Depois do 25 de Abril, somos todos democratas, cabemos todos na mesma sociedade e
subitamente todos temos direito de falar e de opinar. Inclusive aqueles que poderão ter uma opinião mais fascista. Estamos transformados num país de bons homens". Os portugueses são "assim
porreirinhos" e o "fascismo dos bons homens" também se prende com isso. "O fascismo português alastrou-se e perdurou todos esses anos em boa parte, acredito, por uma certa inércia, por um
enfraquecimento geral da população", continua Muitos terão compactuado, de alguma forma, com o regime, "não pela convicção de que seria justo, mas devido a esse enfraquecimento".
Há um legado
familiar, uma consanguinidade inevitável nos portugueses: "Todos nós somos filhos ou netos de alguém que, nalgum momento da sua vida, deixou passar o regime, deixou funcionar o regime. Seria
muito complexa a condenação liminar de todas as pessoas que viveram no regime e demoraram tanto tempo a conquistar a liberdade. É preciso entender por que é que aquilo demorou tanto
tempo."
Voltamos,
então, à questão do pai. Porque talvez o fascismo tenha criado o "grande pai" de todos nós. Se "somos todos silva neste país", todos somos, como se lê, "silvestres", "crescemos aí como mato". E
também todos somos rasteiros, como as silvas, baixinhas, que não levantam muitas ondas e andam ali por baixo: "Somos discretos e achamos sempre que não somos capazes de". Talvez todos sejamos
netos do "grande pai". valter reage com alguma indignação: "Eu não quero ser neto desse senhor! Mas as pessoas que partilham comigo este país, o meu tempo de vida - não todas, mas uma boa parte
delas - elegeram Salazar como o maior português de sempre. O que é que isso significa?". "a máquina de fazer espanhóis" procura identificar esse problema e responder a estas questões: "Quem
somos, afinal, em relação ao fascismo, o que é que sobra de neto daquele homem?" Em valter, não sobra nada de Salazar. Talvez sobre o fado, "que ele promoveu e abraçou", ou o gosto pelo folclore.
"Mas eu tenho uma espiritualidade não-religiosa, vou às igrejas ver arte, só. Tenho uma concepção da família absolutamente humanista e sou absolutamente avesso ao poder exercido à revelia e a
todas as formas de censura. Estou no avesso de tudo aquilo em que aquele homem acreditava, estou no avesso do universo de merceeiro daquele homem."
Aqui juntam-se
dois pais: o pai verdadeiro que não viveu a velhice, e um "grande pai" que é o avô de todos nós. Num escritor que escolheu chamar-se "mãe". Como se mata o pai? Como se luta contra a "virilidade,
esta testosterona que sempre imperou no nosso país", uma masculinidade subreptícia, silenciada, escondida? "O meu lado maternal participa neste livro dotando de uma ternura profunda os homens, os
bons fascistas, ou melhor, os bons homens que tiveram de, aqui ou acolá, fechar os olhos ao fascismo. Nunca percebemos se eles são exactamente fascistas, ou não." O escritor quer humanizar estes
homens, anda à procura "da dimensão humana do erro", do homem que "ideologicamente e politicamente erra" e que "pode não deixar de ser profundamente humano". Ou bom homem.
"Este romance
tem muito a ver com esse meu lado maternal, feminino, delicado até, profundamente perecível, lingrinhas [risos]. Esse lado aparece em todos os meus livros na tentativa de encontrar a humanidade
nas situações mais aberrantes. Foram homens que fizeram aquilo: se chegámos a uma situação aberrante foi porque alguma coisa na nossa condição humana estava errada", conclui.
A máquina de
fazer
espanhóis pode
ser Portugal
No final do
livro, o senhor silva grita dizendo "que queria morrer português, queria ser português com a menoridade que isso tivesse de implicar". Para valter, não está em causa querer ser espanhol, "o que
está em causa é esta frustrante persistência de um sentimento de que não somos tão bons quanto os outros". Acha que nos devíamos entender, nós e os espanhóis. "Somos diferentes. Gosto que sejamos
fadistas, e sou mais fadista no estrangeiro. Há qualquer coisa em mim que, se não vier das carnes, do sangue e dos ossos, vem da cultura, que suscita a necessidade de ser mais fadista em
determinadas situações. E gosto que um espanhol possa ser sevilhano, ter os olhos na testa como nos quadros do Picasso, e falar-me do Goya com o orgulho que lhe compete". valter quer Portugal
como um país de "gente que se esforça por impressionar os outros, por se melhorar a si própria e que possa depois orgulhosamente dizer aos outros: eu sou o país do Camões, do Fernando Pessoa, do
Herberto Hélder. Eu sou o país da Amália Rodrigues."
As novas
gerações já "escapam largamente a esta lógica", esta "coisa estranha de acharmos que não podemos ser tão bons quanto os outros". Os bisnetos do "grande pai" serão "muito mais livres" e vão
"deitar esta herança salazarenta ao lixo de uma vez por todas".
Talvez por
isso, o cânone da língua, de Camões a Herberto, passando por Eugénio de Andrade e, sobretudo, Pessoa, esteja no livro de forma explícita. Há uma personagem, o "Esteves sem metafísica", roubada à
"Tabacaria" do Álvaro de Campos. "O Esteves entra aqui por um delírio e por uma paixão enorme pelo Pessoa. O que fiz com o Esteves foi um jogo como o Pessoa gostava de fazer, um jogo puramente
pessoano: mostrar como a literatura, por mais que se ocupe da realidade, se faz de ficção e vai ao encontro daquela máxima de que o poeta é um fingidor. Por isso, fingi coisas acerca do Pessoa, e
fingi coisas acerca de uma personagem sua, para brincar com ele com as sua próprias armas." Há aqui uma certa ironização do papel do escritor, um fazer justiça às personagens, um "colocar em
crise da dignidade do escritor": "Se abalo os grandes louros do Pessoa, estou imediatamente a abalar-me a mim também".
Questionar o
cânone como se questiona a língua, as regras gramaticais, os pré-conceitos. Novamente a questão das maiúsculas é suscitada, porque neste romance há dois capítulos com maísculas. Gralha?
Desformatação do computador? Também há aspas. valter ri-se: "Isso é horrível, de facto. São os capítulos mais terríveis do livro." Esses são os capítulos onde surgem o inspector Jaime Ramos e
Isaltino de Jesus, personagens de Francisco José Viegas. "A formatação do texto é feita à luz do 'Longe de Manaus' do Francisco José Viegas. Roubei-lhe o modo de escrita. Achei curioso fazer isso
como exercício." Para valter, foi "cómico" jogar com as personagens de Viegas. "As personagens dele são mais sérias do que acabam por ser no meu livro, onde não resolvem nada, ficam ali perdidos.
Fui cruel com eles, porque queria que viesse um pouco ao de cima essa perigosidade dos velhos." A escrita desses capítulos, conta, foi toda feita em gargalhadas. "Meter-me com o Viegas, e
perspectivar todo aquele 'ser metediço' dos inspectores com aquelas personagens, pondo-as perversamente a dizer o que me apetece dizer [risos], deu-me gozo."
O Ípsilon
agradece à Casa da Música a cedência do espaço para esta entrevista.
Um
Governo para gerir corações
No camarim dos
artistas da Casa da Música, valter hugo mãe põe o chapéu por causa da corrente de ar. "Agora sou outro." Cresceu a admirar David Bowie e "aquela coisa camaleónica de se repensar, de arriscar, de
ser outro, sendo sempre ele mesmo." A conversa segue, então, sobre os Governo, projecto do escritor com Miguel Pedro e António Rafael, dos Mão Morta. O disco, "propaganda sentimental", saiu no
final de 2009, e valter justifica: "Estamos fartos de governos que falham, e que nos iludem." A propaganda é sentimental, porque a outra já não serve: "A única coisa que é verdade é o que vem dos
afectos. Este é um governo para profundas declarações de amor, para a gestão dos corações".
Os portugueses
podem votar: ao fazer o "download" gratuito do álbum no site da editora, "cada pessoa está a votar em nós e motiva-nos a prosseguir". Concertos só lá para Setembro. Os Mão Morta estão a gravar um
novo álbum e a celebrar 25 anos de carreira, uma efeméride que não lhes permite governar.
As letras do
álbum são, diz, profundamente portuguesas. Há um "sofrer e morrer de amor que tem que ver com a nossa identidade amorosa nacional". Aqui começam as referências: Adriana Calcanhotto e os seus
poemas de "dor de corno", cujos versos valter cita de cor ("Eu vou derramar nos seus planos. O resto da minha alegria"). Mas Adriana tem qualquer coisa de "brasileiro" que assenta "numa percepção
de que a felicidade é necessária", enquanto um português, perante a desgraça amorosa, diria: "Eu vou derramar nos seus planos. Todas as minhas lágrimas." O sofrer de amor português é uma coisa
"fatalista", e valter não foge à regra, porque os seus poemas são um "se me deixares, mato-me". "Todas as minhas dores de corno são suicidas."
Admite que
sempre quis ser cantor, desde miúdo, mas a timidez não o deixava dizê-lo a ninguém. A ideia de alguém lhe dizer "ah, és cantor? Então, canta lá alguma coisa" foi o suficiente para ficar calado
muitos anos. Cantar tem, então, a ver com uma proposta de vida: "Ter alguma lata." O palco ainda mete medo, "facilmente tropeço nos meus próprios pés", mas, assume "acima de tudo o risco". Correr
riscos e aceitar falhar seguindo a máxima de Beckett, "falhar, falhar sempre, falhar melhor".
Rui Reininho
disse que valter era uma espécie de Antony com Variações. Valter identifica-se, mas fica chateado que lhe digam que é uma versão portuguesa do Antony. "A voz dele é um luxo absolutamente
requintado e, ao pé dele, sou uma peixeira com voz de homem." Mas também não é bem Variações, apesar de sentir "aquela coisa da insatisfação". Os poemas passam por aí, "não estou bem aqui, só
estou bem onde não estou". Antony e Variações são referências valiosas, mas, se calhar, Reininho é que é referência maior. Há uma ligação natural de valter a Anthony (são amigos, e Anhony é
personagem no romance "o nosso reino"), mas, se prestarem bem atenção, "encontram mais facilmente o Reininho ali dentro, como encontrariam outras pessoas como David Thomas Broughton, ou Chet
Baker", sem o veludo do Chet. E encontrariam a mulher inimitável: Billie Holiday. "No fundo, sou um profundo imitador da Billie Holiday. Sou a Billie Reininho."
R.R.
Notre Royaume
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