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Jeudi 19 mai 2011 4 19 /05 /Mai /2011 13:13

Foto extraite d'angelus

 

Eduardo: Ne m'en voulez pas. Je n'ai pas eu d'accord préalable et, je

sais que cela peut m'apporter la colère de l'Auteur...

Je n'ai pas reçu votre livre mais, j'ai réussi à trouver quelques uns de

vos poèmes. Et, c'est pourquoi, j'ai voulu vous faire un cadeau...

Car, la traduction n'est pas seulement la grammaire, le vocabulaire et...C'est aussi le ressenti. Et, quand on nage avec une tête à deux

cultures profondément ancrées, on ressent les mots et, ce qui

est écrit entre eux.

Alors, je vous embrasse. Merci! Rosario duarte da costa

                                                             Copyright

                                                         Paris, le 19/05/2011

 

 

 

A manhã toda topázio,
sensação urbana de tendões, poros
e carne.
Um grito gritado ao contrário,
diluído em chama, salgado.
A manhã era a labareda do teu corpo

Auteur: Eduardo Pitta

 

 

Toute la matinée topaze,

sensation urbaine des tendons, pores

et chair.

Un cri crié à l’envers,

dilué en flamme, salé.

Le matin fut la flamme de ton corps.

Auteur: Eduardo Pitta

Traduit par : Rosario Duarte da Costa

           

Perseguem-me fantasmas
de outros tempos.

Árvores despidas
que o horizonte plúmbeo
ajudou a recortar
com uma nitidez
de pesadelo.

E tudo agora me diz
dos tempos em que
menino
me deleitava no estalar
de folhas em carne viva.

Auteur: Eduardo Pitta

 

 

Des fantômes d’autres temps

me poursuivent.

 

Des arbres nus

que l’horizon plombé

a aidé à découper

avec une netteté

de cauchemar.

 

Et maintenant tout me dit

des temps en que

enfant

je me délectait sur le craquellement

de feuilles de chair vive.

Auteur: Eduardo Pitta

Traduit par : Rosario Duarte da Costa

 

Um cão de angústia progride
na cidadela sitiada

enquanto te demoras
no sorvo
no arquejo largo
no topo da saliva

enquanto te entreabro
as pernas altas
enquanto te humedeço
o musgo tenro

para te ferir com a boca
cheia de vidro moído.

Auteur: Eduardo Pitta

 

Un chien d’angoisse progresse

dans la citadelle assiégée

 

tandis que tu demeures

dans le sucer

dans le large halètement

dans le top de la salive

 

tandis que je t’entrouvre

les hautes jambes

tandis que je t’humidifie

la mousse tendre

 

pour te blesser avec la bouche

pleine de verre moulu.

Auteur: Eduardo Pitta

Traduit par : Rosario Duarte da Costa

 

 

 

Par Rosario Duarte da Costa - Publié dans : Auteurs Lusophones... - Communauté : Caligrafias Poéticas!
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Vendredi 13 mai 2011 5 13 /05 /Mai /2011 11:01

 

st

Auteur des Photos: Miguel "olhares.com"

 

st

Poésie de Sérgio Milliet

Poète Brésilien né à São Paulo en 1899

 

Œil de Bœuf (l’auteur l’a écrit en Français)

 

 

Acide trop acide

« Le ciel est par-dessus le toit »

Mais la vie est en bas

grouillante

acrobatique

acide

souple

multiface

 

Homme-sandwich des gratte-ciel illuminés

regard de fou sur un monde simultané

klaxons rauques des modernes tempéraments

voici venir l’homme aux ailes d’acier

l’homme- machine

l’homme- sandwich

Klaxons rauques des modernes tempéraments

les automobiles

les métros

la vie  la vie  la vie

les longues cheminées d’automne

monotones

avec leurs beuglements

intermittents

klaxons rauques

perçant comme les salves de mitrailleuse

la misanthropie des vaincus

Ah !

In « anthropologie de la Nouvelle revue de Saint Paulo

Rosario Duarte da Costa

Copyright

30/04/2011

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*oo*
Par Rosario Duarte da Costa - Publié dans : Auteurs Lusophones... - Communauté : Nouvelles d'ici et d'ailleurs
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Vendredi 13 mai 2011 5 13 /05 /Mai /2011 09:43
 
La machine à faire des espagnols
 
 
 
L'autre jour, lorsque j'ai écrit un article sur V.H.M., j'ai tenté
d'introduire ces reportages sur lui mais hélas, chaque fois que je
voulais enregistrer le tout, je tombais en panne.

C'est pourquoi, je les mets en ligne pour tous ceux qui cherchent à

mieux le percevoir car, actuellement aux USA, l'auteur ne cessera certainement pas de nous surprendre!

Bonne lecture!

Rosario Duarte da Costa

Copyright

13/05/2011

 

L'apocalypse des travailleurs

Entrevista a valter hugo mãe – Autor de «o nosso reino»

Posted on 28/04/2011 by ruiazeredo| Deixe o seu comentário

valter hugo mãe, poeta, editor e agora romancista (esta entrevista foi inicialmente publicada em O Comércio do Porto a 5 de Dezembro de 2004), lançou recentemente a sua estreia na prosa, o nosso reino (Temas e Debates) e quase em simultâneo deixou as quasi, editora famalicense da qual era sócio.
Cedências editoriais a uma linha mais “popularista” levaram-no a procurar novos rumos e agora não disfarça o entusiasmo pela prosa, depois de anos dedicados em exclusivo à poesia. Para trás fica a sua ligação a uma editora que apostou na qualidade e cresceu longe das grandes cidades.
O nosso reino, que roça o surrealismo, leva-nos a um mundo rural onde a religião e Deus impõem a sua força e poder a um crédulo miúdo de oito anos
(Nota: o nosso reino foi reeditado em 2011 pela Alfaguara, sendo assim a sua terceira edição em três editoras distintas – antes tinha saído na Temas & Debate e na QuidNovi.)

Neste seu primeiro romance a morte e a religião são omnipresentes. Porquê?
Fiz essa opção por natureza. Quase tudo no livro foi encontrado por acaso. Comecei a escrever o livro de surpresa, não estava sequer à espera de escrever um romance. É um bocado o que se passou sempre com os meus livros de poesia. De repente estava a escrever um livro de poesia e não apenas um poema. Desta vez eu tinha uma frase – provavelmente estava anotada para vir a ser um verso –, a primeira do livro, (“o homem mais triste do mundo”) e que me deu a ideia de procurar esse indivíduo, de saber quem seria. E as coisas surgiram um bocado umas a partir das outras e sem dar muito conta disso estava dentro de um ambiente religioso, a fazer considerações sobre as questões da fé e do transcendente, sobretudo do esperar alguma coisa de que não existe prova, de que não existe uma garantia. E o mundo da religião é também feito para a crença no impossível, no inexistente. O livro é todo à volta do que há e do que não há e do que se pensa ou do que se quer que exista.

Tem uma imagem da Igreja tenebrosa e obscura?
Tenho tendência para acreditar que existe alguma coisa. A história do Cristo é uma história tão incrível, tudo o que a Bíblia conta é tão incrível, que tenho tendência para acreditar que seria impossível ser inventada. A realidade ultrapassa sempre a ficção. Tenho tendência para acreditar que aquilo que ali está em boa parte é verdade. Por isso tenho uma relação, sem dúvida, com questões religiosas de alguém que tem a tendência para acreditar. Mas tenho ao mesmo tempo alguma dificuldade em lidar com o sistema operativo da religião. Não tenho reconhecido em muitos padres uma autoridade moral e espiritual que me convença. Dos poucos padres com os quais estive mais perto todos me frustaram, ou porque entram em actividades políticas e impingem às pessoas programas políticos, ou porque como pessoas são seres intratáveis, antipáticos. Há sempre qualquer coisa… Até hoje não conheci um padre que me convencesse. Para ser um líder espiritual precisa de ser alguém profundamente inteligente, porque um indivíduo que está em cima de um púlpito a tentar dirigir a vida dos outros tem de saber muito bem o que é bom para os outros e por isso qualquer opção ou conselho que esteja a dar tem de ser muito bem fundamentado. Infelizmente, acho que a inteligência não tem sido muito procurada quando se abrem concursos para padres.

Noto alguma desilusão não com a Igreja em si, mas com quem a habita.
Sim, um bocado como se passa no romance. O padre do romance diz que a igreja é muito antiga e muito grande e é impossível conhecer todos os padres que a habitam. Também tenho certas dúvidas sobre a pertinência de haver uma hierarquia na Igreja. O papa, depois os bispos, os cardeais, uns mandam nos outros, até ao soldado raso, que acaba por mandar na paróquia. Parece-me que seria mais lógico que a igreja funcionasse como um clube de amigos, sistema integrado em que toda a gente pudesse participar activamente no que é dito e decidido dentro daquela casa. E se o sistema já de si pode ser duvidoso, se for posto em prática por pessoas que, como todos nós, têm problemas e carências a todos os níveis, leva-me a acreditar que a melhor forma de ser religioso ou ter fé em alguma coisa é ficarmos sossegadinhos com as nossas convicções e fazer as leituras que devemos fazer.

O temor que o protagonista tem em relação ao padre da aldeia é fruto de experiência pessoal?
Não. Tentei fazer com que o romance não tenha absolutamente nada de autobiográfico. Claro que fui eu que o escrevi, há-de haver coisas que são minhas, coincidem com ideias minhas. Imaginemos se eu tivesse tido uma tia que é boa em matemática, como acontece com a tia do miúdo no romance, em vez da tia do miúdo do romance ser boa em matemática era boa a geografia. Tentei fazer com que as coisas não coincidissem em absoluto com nada que se passou comigo. Há uma coisa ou outra. Em relação ao padre, nunca me apareceu nenhum a bater. Quando era miúdo – costumava ir à missa com os meus pais – nunca nenhum padre me prestou alguma atenção. Ou seja, os padres também têm a tendência, pelo menos os que eu vi, para ver as crianças e os miúdos como uma espécie de aborrecimento, de barulho de fundo. “Tens de te portar bem na igreja, não faças barulho.” Não é preciso pôr os miúdos a cantar e dançar, mas os padres deviam suscitar os miúdos para a conversa, porque muitas vezes estão a esconder coisas, a passar por coisas e a passar por dúvidas e o padre poderia ser a melhor pessoa para impedir que se agrave. Nunca tive problemas, mas também nunca senti acompanhamento por padre nenhum. Das poucas vezes que me confessei quando era miúdo senti que estava a fazê-lo para uma máquina. Não estabeleci diálogo nenhum. Eu dizia que tinha chamado nomes ao meu irmão e ele dizia “reza três avé-marias”. Era quase como pôr uma moeda numa máquina e da máquina tirava um ovinho com a sina ou coisa do estilo.

Será por isso que as pessoas estão mais afastadas da Igreja, enquanto edifício?
Sem dúvida. As pessoas não conseguem manter fidelidade a uma parede e a igreja neste momento é uma parede, pelo facto de não existir diálogo, pelo facto da eucaristia ser, sobretudo, um evento quase espectacular, onde o público não intervém, fica passivo a ouvir as maiores barbaridades que os padres dizem nos sermões. Lembro-me de ter ido a um casamento em que um padre dizia que não havia problema nenhum em a mulher obedecer piamente ao homem. Se ela gostasse muito dele e ele gostasse muito dela, porque não haveria de obedecer ao homem? Essas coisas fazem-me mal. Um senhor, de cinquenta e tal anos que nem sequer é casado, ou pelo menos não devia, estar ali tão sapiente sobre o que o homem e uma mulher devem fazer numa relação… Estas posturas são cada vez mais obsoletas. Não é que algum dia tenham sido modernas, o que está errado, está errado. É tão evidente que existem essas deficiências de postura que as pessoas acabam por se fartar. As mulheres hoje em dia já pensam, acho que a Igreja não acredita muito nisso.

“Os líricos românticos acham que os artistas têm de ter uma panca”

O romance decorre antes do 25 de Abril, mas também poderia ser deslocado para a actualidade de alguns meios rurais.
No meu livro tudo é muito exagerado porque é uma criança que está a contá-lo.
Nunca devemos acreditar piamente no que o narrador está a dizer. Eu, enquanto leitor deste livro, duvido sempre das intenções do miúdo. Tive sempre alguma ligação com a questão de África (nasci em Angola) e ao longo da minha vida fui conhecendo algumas pessoas que estiveram em África. Como acontece em todas as guerras e conflitos, existe um enorme mito do como foi e como era e muitas vezes as pessoas tornavam as coisas mais agressivas. Contavam-me coisas pirotécnicas, absolutamente absurdas, que só por estupidez é que achariam que os outros iam acreditar.

Recorreu a uma criança para poder escrever exageros mais livremente?
A criança tem várias utilizações. O livro, todo ele, é uma interpelação à figura de Deus, é uma espécie de encosto de Deus à parede, a ver se ele responde. Acho que a questão de as crianças serem puras e ingénuas e merecerem toda a atenção, faz com que esse pedido desenfreado por uma manifestação divina seja mais eloquente e mais passível de ser atendido. Como queria extrapolar, exagerar e criar universos fantásticos, a ingenuidade de um miúdo é passível de me dar até um surrealismo, que é uma das possibilidades de leitura do romance.

Foi-lhe difícil meter-se dentro da mente de uma criança?
Não. Tive uma infância muito interessante e especial. O mais interessante era a minha própria cabeça, era muito curioso e tinha a mania de ouvir as conversas das outras pessoas. A minha curiosidade era de ouvir as coisas e fazer as lógicas e as ligações. Era um miúdo muito convencido com as minhas verdades. O que fiz no fundo foi transformar esse miúdo e fazê-lo sofrer o que eu sofria com 4 ou 5 anos – era de uma credibilidade incrível.

Nunca pensou em aproveitar esses pensamentos de criança para fazer livros infantis?
Toda a gente me diz isso. Este livro tem duas coisas: está tão ligado aos livros para miúdos como a dada altura poderá estar ligado aos livros fantásticos e filmes de terror. Eu vou passar pelas duas coisas. Já tenho estado a escrever outras coisas e tenho intenção de escrever puramente aventura, infanto-juvenil, terror. Algumas das coisas que estou a escrever já estão a aflorar e explorar esses universos. Sempre fui fascinado pela fantasia em todos os seus sentidos, desde os filmes de animação de criação de mundos, seres espectaculares, bichos nas profundezas do mar, ou no interior da Terra. Sempre adorei esses filmes de animação com a fantasia levada ao extremo do gore. O que me decidi finalmente foi começar a contar histórias.

Porque escreve em minúsculas?
Escrevo assim porque num texto todas as palavras têm a mesma dignidade, estão todas em pé de igualdade e depois o leitor é que lhes confere importância.

É dos poucos autores portugueses com página na net.
Tenho um site que é feito por um amigo. As pessoas têm o preconceito que o escritor tem de ser muito discretozinho, não aparecer, as entrevistas têm de ser muito sérias. O escritor tem de ser um bicho raro. É um preconceito dos líricos românticos que acham que a malta das artes e os artistas têm de ter uma panca muito grande.

“São as raparigas cor-de-rosa que estão a vender livros e isso assusta-me”

Não acha que há lançamentos literários a mais em Portugal?
Os livros nunca são demais se forem bons.

Ou há poucos leitores no nosso país?…
Os leitores é uma coisa que se faz. Se houver livros as pessoas acabam por aparecer. A questão é que se edita muito lixo, se calhar por causa da necessidade de popularizar um bocado a coisa. O problema é que as pessoas não estão a comprar os melhores livros. É uma pena que o José Luís Peixoto ainda não tenha entrado nos hipermercados. Como é que ele ainda não consegue estar ao lado dos livros da Margarida Rebelo Pinto? Por mais popular que ele seja (e é), a Margarida Rebelo Pinto, a Susanna Tamaro, e todas estas raparigas cor-de-rosa pertencem a um mundo muito mais popular. E são elas que estão a vender livros, a ganhar dinheiro, a ficar famosas e isso assusta-me um bocado. A Margarida Rebelo Pinto no Sei Lá tem uma personagem que a dada altura parece muito importante e depois desaparece aí na página 40. Esqueceu-se da personagem… Ela que seja feliz, mas preferia que o José Luís Peixoto vendesse 200 mil exemplares e que a Margarida vendesse três mil.

Mas a literatura light não pode servir para habituar as pessoas a ler?
Pode. Algumas daí passam para outro lado, têm um prazer enorme a ler e querem mais e vão buscar o… Paulo Coelho (sorriso). Pode ser que depois consigam abrir um bocado os olhos. Algumas já lêem o Equador (de Miguel Sousa Tavares). Mas depois já podem chegar a uma coisa… melhor.

“A poesia é uma coisa para meia dúzia de freaks”

Agora que experimentou a prosa, a poesia foi posta de parte?
Escrevo sempre poesia e vou ser sempre poeta, o que acontece é que já tenho nove livros de poesia, já errei em alguns. Os meus primeiros livros eram muito maus, preferia não os ter escrito. De momento escrevo um poema e deixo-o de lado, fascina-me a prosa. A poesia é quase um exercício de abandonar as pessoas, muito autista. Na prosa, estou a fazer o contrário, chamo as pessoas para entrarem nos livros, sinto-me mais acompanhado e comunicativo.

Continua a escrever poesia?
Vou continuar a escrever mas decidi que em 2005 não publico poesia. Tenho publicado muita poesia e acho que o mundo tão cedo não precisa de poesia minha.

Não se sente frustrado por só agora muita gente passar a reparar em si?
Sim, mas eu não estava iludido. A poesia é realmente uma coisa para meia dúzia de freaks, para gente muito estranha. Não é violento que as pessoas agora me conheçam pela prosa.

Está satisfeito com este romance?
O facto de ter feito uns livros de poesia ao princípio mauzinhos permitiu-me agora fazer um romance do qual não me vou envergonhar. As pessoas têm dito que é excepcional, têm adorado. Acho também que o que acontece neste livro, e não acontecia na poesia, é que as minhas intenções são mais claras. A poesia é mais abstracta, mais resistente ao leitor e muita gente está fundamentalmente a entender o que quero, o que digo. Os meus amigos que compravam os meus livros por simpatia agora dizem: “Então o valter afinal é isto, então como escritor diz estas coisas, já entendo.” O livro veio fazer uma luz sobre as minhas intenções literárias.

“As quasi complicaram-se, isso é verdade, é um projecto cada vez mais complexo”

Porque resolveu editar “o nosso reino” na Temas & Debates e não na editora da qual era sócio na altura, as edições quasi?
Porque é muito confrangedor editar nas quasi um livro meu e eventualmente ser colocado numa posição em que o tenho de promover. O que acontecia é que os livros que editei na quasi não os promovia. Os livros seguiam para os críticos no meio dos outros todos e depois era capaz de entrar em contacto com um ou outro crítico para falar de um ou outro livro mas nunca falaria do meu. Era muito interessante: podia fazer as capas, podia fazer o livro no dia em que me apetecesse, a tipografia por consideração à minha pessoa imprimia o livro rapidíssimo. Era tudo muito bonito, mas efectivamente era muito mau em termos de promoção e divulgação. Isto também passa pelo facto de ter uma consideração muito grande pela colecção da Temas e Debates, a Lusografias – gosto muito do trabalho da Maria do Rosário Pereira. E a prova de que o efeito tem sido outro é que o livro tem chegado a muitos mais lugares, a muito mais gente, porque ainda existe a Ana Pereirinha que faz os contactos promocionais todos e diz a toda a gente que é “muito bom, muito bom, muito bom” e as pessoas ficam convencidas de que pelo menos vale a pena ir ver o que é.

Falou nas quasi. Há dias soube-se da sua saída como sócio da editora. A que se deveu essa partida?
Se calhar um bocado por gostar de estrear. Estreei como editor, estive cinco anos como editor e agora vou correr riscos. Quer dizer… nas quasi corremos riscos. Montar uma editora em Famalicão, editar montanhas de poetas, ser apreciado por uns e odiado por outros, mexer com a consciência das pessoas foi um risco. Mas bem sucedido, porque as quasi em termos comerciais se viabilizaram. Em última análise é a prova que o projecto é válido. No que respeita aos cinco anos que lá passei valeu mesmo a pena. Neste momento gostava de me dedicar mais à escrita. Pode surgir uma ou outra proposta para alguma ligação para outras editoras. Pode ser. Não descarto a hipótese de continuar ligado ao mundo da edição, que era o meu trabalho na quasi, mas nunca a nível de editor/empresário. Nas quasi tinha de reunir com contabilistas, bancos, e aturar credores e fornecedores e pedir dinheiro aos devedores. Torna-se muito complicado e passou o meu tempo ali e quero começar de novo.

Mas acha que as quasi cresceram de mais e se desvirtuaram? Há algum descontentamento?
Não, não. As quasi complicaram-se, isso é verdade, é um projecto cada vez mais complexo. Não se desvirtuou, foi-se adaptando. De início, editávamos alguns livros e por isso precisávamos de algum dinheiro. Passado algum tempo passámos a editar muitos livros de poesia e passámos a precisar de muito dinheiro e isso fez com que em termos de critérios tenhamos sentido a necessidade de abrir um pouco mais os nossos horizontes, os nossos leques de autores e tudo isso. Tentámos sempre não fazer grandes concessões em relação à qualidade mas por vezes tivemos a necessidade de entrar em domínios mais populares, de mais fácil acesso ao público. E isso, na minha perspectiva, foi sempre motivado pela vontade que eu tinha de investir em gente que eu sabia que não ia vender muito. Fico um bocado curioso por saber o que o Jorge (Reis-Sá) vai fazer agora, mas sei que no imediato vai seguir o que estava a ser feito. Mas depois… será a imagem dele que ficará. A minha tem sobretudo a ver com estes cinco anos.

Acha que vai ser uma editora mais comercial?
…é possível.

Foi por isso que saiu?
Eu aqui cheio de rodeios e rodeios… Não sei, não sei. Pode ficar mais comercial até porque a crise tem obrigado a que todas as editoras tenham uma postura mais aberta e popular. E as quasi se quiserem subsistir com alguma simpatia e com ambiente agradável provavelmente vão ter de continuar com uma política, não digo popularista, mas com momentos espontâneos de popularidade.

Achava que o ideal era encerrar um ciclo e fechar a editora?
Não! Mesmo que na pior das hipóteses o Jorge arrase com a editora e passe a editar as coisas mais horríveis, o meu nome esteve ali apenas nos primeiros cinco anos, o resto não teve nada a ver comigo. Espero que ele não faça isso, sei que ele não vai fazer, tenho confiança, vai correr tudo bem. Inclusive é possível que participe numa ou outra coisa das quasi. Mas sempre muito como outsider. Faz-me um bocado de aflição as pessoas que ficam ligadas às coisas que criaram e que depois não gostam que elas mudem. Não me importo nada. Se as quasi virarem uma editora de livros pornográficos, óptimo. Se calhar até compro alguns ou espero que o Jorge me mande alguns (risos).

“Tivemos facilidade. Achavam todos muito engraçado uma editora em Famalicão”

As quasi são a prova de que numa terra como Famalicão é possível criar um projecto rentável na área cultural?
As quasi são a prova de que se as pessoas tabelarem por cima, lidarem com a qualidade, com aquilo que é reconhecido (seja no norte, sul, este ou oeste), o projecto diz respeito a toda a gente, diz respeito ao país. As quasi tornaram-se numa editora nacional porque os livros que editaram são de carácter nacional. Quando eu entrei (há cinco anos) e profissionalizámos a editora e criámos a empresa foi ponto assente que as quasi estariam em Famalicão, mas seriam de Portugal. Então, com tudo quanto poderia passar pela pieguice do local, do pedido do amigo da porta do lado, nós tentámos ser implacáveis. Se for bom entras se não for… nem que seja a vizinha da porta de cima, nem que apareça de soutien à janela. Acho que as quasi servem de prova para esse tipo de esforço do que numa determinada localidade se pode fazer para desenvolver um projecto que diga respeito a toda a gente. E por isso de início começámos logo a seduzir o António Ramos Rosa, o Eugénio Lisboa, os herdeiros do José Régio e o José Luís Peixoto.

Sentiram mais dificuldades por serem da periferia?
Tivemos facilidade, porque chegávamos a qualquer lado e diziam: “Ahh, aqueles rapazes tão simpáticos de Famalicão. Imaginem uma editora em Famalicão’. Achavam todos muito engraçado. E de engraçado em engraçado arranjávamos tudo. Depois editávamos as pessoas de quem gostávamos e essa energia de aparecermos perante alguém como admiradores passava imediatamente. E desde seduzir do Mário Soares ao Eduardo Prado Coelho foi muito fácil. Por ser de Famalicão acharam que era um projecto descentralizador e quiseram participar. Acho que se calhar o segredo neste momento está em sedear uma coisa qualquer em Freixo-de-Espada-à-Cinta e falar com o Prado Coelho (risos).

Quais foram os momentos mais marcantes do tempo que passou nas quasi?
A 11ª edição de Poemas de Deus e do Diabo, do José Régio, que estava esgotado há vinte anos e que só nós pudemos reeditar. Fiquei deslumbrado. O termos inventado o livro de letras do Caetano Veloso, que só passado um ano saiu no Brasil. Um livro que já tinha sido pedido por editoras de todo o mundo. Nós perguntámos e ele disse que sim e perguntámos outra vez e ele disse que sim. Editámos a Adriana Calcanhotto, um livro que ainda não existe no Brasil. Quando fizemos uma tournée com o Mário Soares e ele disponibilizou-se para apresentar a obra em Famalicão, Porto e Lisboa. Aceitou que em Lisboa fosse o Freitas do Amaral a apresentar o livro. Fomos jantar lá com o Freitas do Amaral, que foi a primeira vez que entrou na casa dele. Foi um momento histórico. Editámos um livro do Mark Kozelek (n.d.r. líder do grupo Red House Painters), que é o único a nível mundial. Os americanos e ingleses nem conseguem acreditar que ele tem um livro editado em Portugal.

(Entrevista realizada em Dezembro 2004

In: http://portalivros.wordpress.com

Le remords de Baltasar Serapião

www.publico.pt

de fazer espanhóis

valter hugo mãe não quer ser neto de Salazar

20.01.2010 - Raquel Ribeiro

 

Todos somos "filhos de alguém que, em algum momento, deixou passar o regime", explica valter hugo mãe. No novo romance, "a máquina de fazer espanhóis", o escritor deixa, por instantes, as mulheres, para entrar na progressiva degradação do corpo de um homem velho. Idosos em lares, a ausência do pai, o fascismo e a terceira idade. Está tudo aqui: o corpo de Portugal em ruínas.

valter hugo mãe regressa com um novo romance, "a máquina de fazer espanhóis", numa nova editora, a Objectiva (com a chancela Alfaguara), deixando para trás Maria do Rosário Pedreira, que o revelou em 2004, e Ana Pereirinha, com quem publicou os seus três romances e ao lado de quem venceu um prémio José Saramago em 2007. Teve uma crise de choro quando percebeu que mudar de editora estava iminente, "andei uns dias a fazer um qualquer luto". Tomou uma decisão de risco por sentir que era necessário colocar-se "nas mãos de pessoas diferentes, e que ajudem a perspectivar o mundo de um modo diferente". valter quis pôr-se em crise para "repensar e abalar alguns conceitos prévios". Como neste livro, sobre a terceira idade, os vários senhores Silva de Portugal e um lar de idosos subversivos. "Gosto da noção de risco, de alguém entrar na minha vida e destrambelhar as minhas convicções."

Há alguém que, a dada altura, sai da vida do escritor e igualmente abala as suas convicções. "a máquina de fazer espanhóis" é dedicado ao pai de valter hugo mãe, "que não viveu a terceira idade". Numa nota final, o autor explica que o seu pai "sempre disse que morreria de um cancro antes da terceira idade": "eu achava que o meu pai era maluco". Este livro é um "e se" dessa velhice, e da velhice de valter também, explica. "Parece que estou a culpar o meu pai deste livro, não é? Este livro manifestamente fez-me sofrer um bocadinho. Mas depois de estas coisas [serem] transformadas em literatura, a minha vida fica mais ligeira. Há um lado terapêutico" Está à procura de uma salvação. Ao dedicar o livro ao pai, culpo-a "de todos estes pensamentos."

Passaram dez anos. Durante muito tempo, o pai não foi tema da sua literatura, não esteve lá. Esteve a mãe, estiveram muitas mulheres. "o apocalipse dos trabalhadores", por exemplo, "é um livro profundamente feminino, no sentido em que é uma tentativa de chegar à percepção feminina do mundo, à dignidade feminina, e por isso é um exercício radicalmente diferente deste". Talvez porque dez anos sejam o fechar de um ciclo, algo parecia definir-se "agora como nunca" e o tema pôde, então, impor-se. "Sem que fosse demasiado penoso para mim, ou intrusivo para o meu pai. E sobretudo para que valesse a pena para a literatura".

Imaginar uma velhice que não se teve e a que não se assistiu "não foi mexer em nada de novo", uma vez que todas as histórias, por mais autobiográficas, são feitas de uma "intuitiva imaginação". "A pesquisa", explica, "é o cúmulo da minha vida, é toda esta acumulação que se chama valter hugo mãe, ou que se chama valter hugo alves pimenta de lemos, que as pessoas conhecem como valter hugo mãe." Por isso, entra nessa velhice supondo-se nela, "enfim, tentando entender o ser humano de um modo universal". Todos somos "um bocadinho de todos os homens." Porque, como no romance, todos somos "Silva".

Viver contra o aluimento  do corpo

Vivemos num tempo em que ser jovem está na moda. "Admiramos profundamente as pessoas que não aparentam a sua idade", nota valter. Por exemplo: "Gostamos muito da Madonna porque aos 50 anos parece ter 35." E, no entanto, abre-se cada vez mais "um fosso entre as pessoas que poderíamos considerar no activo e as pessoas que, pelo peso da idade, se vão entregando a um conforto" - os velhos. Estamos irremediavelmente "mais distantes uns dos outros, como se fôssemos populações de diferentes planetas, de diferentes sociedades".

Isto assusta-o: a geração que hoje tem 30 ou 40 anos "vai ser muito especial quando chegar a velha, porque muito rarefeita". Somos filhos únicos, ou temos apenas um irmão, "vamos chegar mais sozinhos à terceira idade, vamos ser radicalmente menos, entregues, cada vez mais, à nossa própria sorte". Se não houver uma cultura que perceba os "mecanismos sociais de protecção da terceira idade, arriscamo-nos a chegar a velhos e termos uma velhice muito menos confortável, e até substancialmente aterradora", argumenta. Para valter, há toda "uma política ou uma ideologia acerca da terceira idade que é urgente ser atendida, para que isso possa resultar numa consciência social que perdure até aos nossos tempos de velhice." Há um longo caminho a percorrer: ainda temos "demasiados problemas com lares", ainda andamos "à procura da definição dos direitos de um cidadão que necessita de assistência", não sabemos "o que exigir a um lar, com que dinheiro se faz um lar, e onde o vamos buscar".

Neste romance, os idosos vão habitando o lar que subversivamente chamam de "feliz idade", aceitando morrer "violentamente devagar", numa luta diária contra o corpo. O inimigo do homem que lentamente se degrada é o seu próprio corpo, lê-se, "porque é o corpo que nos ataca. estamos finalmente perante o mais terrível dos animais, o nosso próprio bicho, o bicho que somos". Esta é a imagem da velhice como o "cérebro que alui corpo abaixo". Dá a sensação de que "aluímos para dentro". Perdemos os alicerces. Ruímos.

E apesar dessa degradação física, há uma sustentação moral nestes homens e mulheres. Esta é uma história triste e trágica, mas há um fino humor que passa pelo texto. Se a obra anterior era um apocalipse, esta é uma rebelião dos velhos. A dada altura, diz-se no livro: "não podemos ficar velhos e vulneráveis a todas as coisas, temos de nos rebelar aqui e acolá". Para valter, é preciso que o mundo perceba que estes velhos ainda são ou podem ser perigosos.

Isto é uma "incitação à luta". "Todos precisamos de estar em permanente actividade, permanente participação social. Há uma reclamação constante que nos compete. Se não dissermos que precisamos de alguma coisa, as pessoas não vão perceber. E neste livro há um piropo às pessoas mais velhas para que percebam a sua componente ainda perigosa". Estes idosos são subversivos, "ainda contam, ainda participam". "Gosto de acreditar que as pessoas podem ser acordadas para uma participação, para decidirem. Precisamos disso. Precisamos dessa vontade de as pessoas se ligarem, de funcionarem como um colectivo".

Fascismo dos bons homens

A ausência de colectivo poderá ser explicada pelo legado do fascismo na sociedade portuguesa. E, no entanto, o escritor escolhe colocar na mesma frase a palavra "fascismo", que tem uma "carga terrível", admite, e a expressão "bons homens". "Antes do 25 de Abril", explica valter, "uns eram fascistas, outros não. Depois do 25 de Abril, somos todos democratas, cabemos todos na mesma sociedade e subitamente todos temos direito de falar e de opinar. Inclusive aqueles que poderão ter uma opinião mais fascista. Estamos transformados num país de bons homens". Os portugueses são "assim porreirinhos" e o "fascismo dos bons homens" também se prende com isso. "O fascismo português alastrou-se e perdurou todos esses anos em boa parte, acredito, por uma certa inércia, por um enfraquecimento geral da população", continua Muitos terão compactuado, de alguma forma, com o regime, "não pela convicção de que seria justo, mas devido a esse enfraquecimento".

Há um legado familiar, uma consanguinidade inevitável nos portugueses: "Todos nós somos filhos ou netos de alguém que, nalgum momento da sua vida, deixou passar o regime, deixou funcionar o regime. Seria muito complexa a condenação liminar de todas as pessoas que viveram no regime e demoraram tanto tempo a conquistar a liberdade. É preciso entender por que é que aquilo demorou tanto tempo."

Voltamos, então, à questão do pai. Porque talvez o fascismo tenha criado o "grande pai" de todos nós. Se "somos todos silva neste país", todos somos, como se lê, "silvestres", "crescemos aí como mato". E também todos somos rasteiros, como as silvas, baixinhas, que não levantam muitas ondas e andam ali por baixo: "Somos discretos e achamos sempre que não somos capazes de". Talvez todos sejamos netos do "grande pai". valter reage com alguma indignação: "Eu não quero ser neto desse senhor! Mas as pessoas que partilham comigo este país, o meu tempo de vida - não todas, mas uma boa parte delas - elegeram Salazar como o maior português de sempre. O que é que isso significa?". "a máquina de fazer espanhóis" procura identificar esse problema e responder a estas questões: "Quem somos, afinal, em relação ao fascismo, o que é que sobra de neto daquele homem?" Em valter, não sobra nada de Salazar. Talvez sobre o fado, "que ele promoveu e abraçou", ou o gosto pelo folclore. "Mas eu tenho uma espiritualidade não-religiosa, vou às igrejas ver arte, só. Tenho uma concepção da família absolutamente humanista e sou absolutamente avesso ao poder exercido à revelia e a todas as formas de censura. Estou no avesso de tudo aquilo em que aquele homem acreditava, estou no avesso do universo de merceeiro daquele homem."

Aqui juntam-se dois pais: o pai verdadeiro que não viveu a velhice, e um "grande pai" que é o avô de todos nós. Num escritor que escolheu chamar-se "mãe". Como se mata o pai? Como se luta contra a "virilidade, esta testosterona que sempre imperou no nosso país", uma masculinidade subreptícia, silenciada, escondida? "O meu lado maternal participa neste livro dotando de uma ternura profunda os homens, os bons fascistas, ou melhor, os bons homens que tiveram de, aqui ou acolá, fechar os olhos ao fascismo. Nunca percebemos se eles são exactamente fascistas, ou não." O escritor quer humanizar estes homens, anda à procura "da dimensão humana do erro", do homem que "ideologicamente e politicamente erra" e que "pode não deixar de ser profundamente humano". Ou bom homem.

"Este romance tem muito a ver com esse meu lado maternal, feminino, delicado até, profundamente perecível, lingrinhas [risos]. Esse lado aparece em todos os meus livros na tentativa de encontrar a humanidade nas situações mais aberrantes. Foram homens que fizeram aquilo: se chegámos a uma situação aberrante foi porque alguma coisa na nossa condição humana estava errada", conclui.

A máquina de fazer

espanhóis pode ser Portugal

No final do livro, o senhor silva grita dizendo "que queria morrer português, queria ser português com a menoridade que isso tivesse de implicar". Para valter, não está em causa querer ser espanhol, "o que está em causa é esta frustrante persistência de um sentimento de que não somos tão bons quanto os outros". Acha que nos devíamos entender, nós e os espanhóis. "Somos diferentes. Gosto que sejamos fadistas, e sou mais fadista no estrangeiro. Há qualquer coisa em mim que, se não vier das carnes, do sangue e dos ossos, vem da cultura, que suscita a necessidade de ser mais fadista em determinadas situações. E gosto que um espanhol possa ser sevilhano, ter os olhos na testa como nos quadros do Picasso, e falar-me do Goya com o orgulho que lhe compete". valter quer Portugal como um país de "gente que se esforça por impressionar os outros, por se melhorar a si própria e que possa depois orgulhosamente dizer aos outros: eu sou o país do Camões, do Fernando Pessoa, do Herberto Hélder. Eu sou o país da Amália Rodrigues."

As novas gerações já "escapam largamente a esta lógica", esta "coisa estranha de acharmos que não podemos ser tão bons quanto os outros". Os bisnetos do "grande pai" serão "muito mais livres" e vão "deitar esta herança salazarenta ao lixo de uma vez por todas".

Talvez por isso, o cânone da língua, de Camões a Herberto, passando por Eugénio de Andrade e, sobretudo, Pessoa, esteja no livro de forma explícita. Há uma personagem, o "Esteves sem metafísica", roubada à "Tabacaria" do Álvaro de Campos. "O Esteves entra aqui por um delírio e por uma paixão enorme pelo Pessoa. O que fiz com o Esteves foi um jogo como o Pessoa gostava de fazer, um jogo puramente pessoano: mostrar como a literatura, por mais que se ocupe da realidade, se faz de ficção e vai ao encontro daquela máxima de que o poeta é um fingidor. Por isso, fingi coisas acerca do Pessoa, e fingi coisas acerca de uma personagem sua, para brincar com ele com as sua próprias armas." Há aqui uma certa ironização do papel do escritor, um fazer justiça às personagens, um "colocar em crise da dignidade do escritor": "Se abalo os grandes louros do Pessoa, estou imediatamente a abalar-me a mim também".

Questionar o cânone como se questiona a língua, as regras gramaticais, os pré-conceitos. Novamente a questão das maiúsculas é suscitada, porque neste romance há dois capítulos com maísculas. Gralha? Desformatação do computador? Também há aspas. valter ri-se: "Isso é horrível, de facto. São os capítulos mais terríveis do livro." Esses são os capítulos onde surgem o inspector Jaime Ramos e Isaltino de Jesus, personagens de Francisco José Viegas. "A formatação do texto é feita à luz do 'Longe de Manaus' do Francisco José Viegas. Roubei-lhe o modo de escrita. Achei curioso fazer isso como exercício." Para valter, foi "cómico" jogar com as personagens de Viegas. "As personagens dele são mais sérias do que acabam por ser no meu livro, onde não resolvem nada, ficam ali perdidos. Fui cruel com eles, porque queria que viesse um pouco ao de cima essa perigosidade dos velhos." A escrita desses capítulos, conta, foi toda feita em gargalhadas. "Meter-me com o Viegas, e perspectivar todo aquele 'ser metediço' dos inspectores com aquelas personagens, pondo-as perversamente a dizer o que me apetece dizer [risos], deu-me gozo."

O Ípsilon agradece à Casa da Música a cedência do espaço para esta entrevista.

 

 

Um Governo para gerir corações

No camarim dos artistas da Casa da Música, valter hugo mãe põe o chapéu por causa da corrente de ar. "Agora sou outro." Cresceu a admirar David Bowie e "aquela coisa camaleónica de se repensar, de arriscar, de ser outro, sendo sempre ele mesmo." A conversa segue, então, sobre os Governo, projecto do escritor com Miguel Pedro e António Rafael, dos Mão Morta. O disco, "propaganda sentimental", saiu no final de 2009, e valter justifica: "Estamos fartos de governos que falham, e que nos iludem." A propaganda é sentimental, porque a outra já não serve: "A única coisa que é verdade é o que vem dos afectos. Este é um governo para profundas declarações de amor, para a gestão dos corações".

Os portugueses podem votar: ao fazer o "download" gratuito do álbum no site da editora, "cada pessoa está a votar em nós e motiva-nos a prosseguir". Concertos só lá para Setembro. Os Mão Morta estão a gravar um novo álbum e a celebrar 25 anos de carreira, uma efeméride que não lhes permite governar.

As letras do álbum são, diz, profundamente portuguesas. Há um "sofrer e morrer de amor que tem que ver com a nossa identidade amorosa nacional". Aqui começam as referências: Adriana Calcanhotto e os seus poemas de "dor de corno", cujos versos valter cita de cor ("Eu vou derramar nos seus planos. O resto da minha alegria"). Mas Adriana tem qualquer coisa de "brasileiro" que assenta "numa percepção de que a felicidade é necessária", enquanto um português, perante a desgraça amorosa, diria: "Eu vou derramar nos seus planos. Todas as minhas lágrimas." O sofrer de amor português é uma coisa "fatalista", e valter não foge à regra, porque os seus poemas são um "se me deixares, mato-me". "Todas as minhas dores de corno são suicidas."

Admite que sempre quis ser cantor, desde miúdo, mas a timidez não o deixava dizê-lo a ninguém. A ideia de alguém lhe dizer "ah, és cantor? Então, canta lá alguma coisa" foi o suficiente para ficar calado muitos anos. Cantar tem, então, a ver com uma proposta de vida: "Ter alguma lata." O palco ainda mete medo, "facilmente tropeço nos meus próprios pés", mas, assume "acima de tudo o risco". Correr riscos e aceitar falhar seguindo a máxima de Beckett, "falhar, falhar sempre, falhar melhor".

Rui Reininho disse que valter era uma espécie de Antony com Variações. Valter identifica-se, mas fica chateado que lhe digam que é uma versão portuguesa do Antony. "A voz dele é um luxo absolutamente requintado e, ao pé dele, sou uma peixeira com voz de homem." Mas também não é bem Variações, apesar de sentir "aquela coisa da insatisfação". Os poemas passam por aí, "não estou bem aqui, só estou bem onde não estou". Antony e Variações são referências valiosas, mas, se calhar, Reininho é que é referência maior. Há uma ligação natural de valter a Anthony (são amigos, e Anhony é personagem no romance "o nosso reino"), mas, se prestarem bem atenção, "encontram mais facilmente o Reininho ali dentro, como encontrariam outras pessoas como David Thomas Broughton, ou Chet Baker", sem o veludo do Chet. E encontrariam a mulher inimitável: Billie Holiday. "No fundo, sou um profundo imitador da Billie Holiday. Sou a Billie Reininho." R.R.

 

Notre Royaume

 

 

valter hugo mãe porto canal «a bomba».wmv
8 min - 21 avr. 2011
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Valter Hugo Mãe
3 min - 27 mars 2010
Importé par vimafepi

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Jeudi 12 mai 2011 4 12 /05 /Mai /2011 11:10

 

  a petrificação dos cegos...

  www.paulomadeira.net

 

PÉ ante pé vai o anjo perdido... 

Quando Saramago escreveu...

”Ensaio sobre a cegueira”

"Essai sur l'aveuglement"

 

Li este livro. Inicialmente, achei-o difícil. Tive que recomeçar

três vezes, para poder entrar no ritmo...

Depois, continuei sem parar. Porque ele me lavava a mim própria,

e, à sociedade onde vivo.

 

Quando Saramago escreveu...”Ensaio sobre a cegueira”, livro

violento sentando a sociedade numa escuridão total, um encontro

do homem com ele mesmo, necessitando entrar no seu próprio

poço para encontrar um dedinho de luz.

Livro onde Saramago apresentou a humanidade suspensa a uma

falta de visão global, distanciada da razão e, conduzindo não ao

viver, sim a uma sobrevivência (de mão dada, com ou sem Deus).

É uma falta de conduta, uma errâcia em busca de uma direção desconhecida.

O autor tentou explicar-nos, como é que neste mundo civilizado

as sociedades voltam-se para uma barbárie – a tentação similar

aos extrêmos como no tempo dos nazis- e, hoje mesmo em

Portugal e, pelo mundo fora existem desses horrores indignos

da natureza humana!

Entre a felicidade individual, o autor vê o Horror, que o faz

sufocar diante das imagens do mundo, divididas entre o Moral,

Amoral e Imoral.

É uma alegoria...cheia de metáforas. Uma experiência que irá

servir a deixar o vazio, a fatalidade, recuperando lentamente a

vista até encontrar por aí, um outro caminho capaz de conduzir

talvez, a sociedade à felicidade.

Mas, este caminho seria talvez, uma nova utopia!

       Rosario Duarte da Costa

Copyright

11/05/2011

 

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Mercredi 11 mai 2011 3 11 /05 /Mai /2011 10:31

 

valter hugo mãe
valter hugo mãe retratado por Nelson d'Aires.
Nome completo Valter Hugo Mãe

 

 

 

  L¨Être à plusieures cordes:

Roman, poésie, Arts Plastiques et Chant!

 

Valter Hugo Mãe

 

Né à Angola (ancienne colonie portugaise), il a vécu à Paços de

Ferreira déménageant ensuite vers Vila do Conde (nord du Portugal).

Avec une Formation en Droit puis en Littérature Portugaise

Moderne et Contemporaine, il a crée il y a plus de dix ans

«Quasi Editions » où, il a publié divers auteurs qui vont de

 Mário Soares (ancien Président de la République portugaise),

ou le poète António Ramos Rosa et, bien d’autres.

C’est alors que depuis 2001 il dirige la revue Apeadeiro « petite

station d’arrêt des trains ». En 2006 il fonda une maison d’édition appelée Objecto Cardíaco «Objet cardiaque ».

Il faut dire que ce jeune écrivain et poète (il pourrait être mon

fils), il a reçu divers prix littéraires comme le

«Prix Littéraire José Saramago »

 (Saramago Prix Nobel) vous vous en souvenez, avec son roman

«Le remords de Baltazar Serapião».

En autre, Valter Hugo Mãe, a rejoint comme vocaliste un groupe musical appelé «Main Morte ».

En complément, voici une entrevue de l’auteur qui fut réalisée

par «Porta livros » de wordpress. J’ai voulu la mettre à votre

disposition, afin que vous puissez mieux percevoir l’auteur !

De même, je joins un article du journal portugais “o publico”

au sujet de son livre «La machine à faire des espagnols ».

Son œuvre est très important, la liste suit :

2000 Campo das Letras

2001 Quasi Edições

Estou Escondido na Cor Amarga do Fim da Tarde

2001 Quasi Edições

O Futuro em Anos-Luz

2002 Quasi Edições

Série Poeta

2003 Edições Centro Atlântico

A Cobrição das Filhas

2003 Quasi Edições

A Alma não é Pequena - 100 Poemas Portugueses para sms

2003 Fundação Ciência e Desenvolvimento

Útero

2004 Quasi Edições

O Resto da Minha Alegria

2004 Temas e Debates

Três Minutos Antes de a Maré Encher

2004 Quasi Edições

O Nosso Reino

2004 Quasi Edições

Desfocados Pelo Vento

2004 Quasi Edições

Apeadeiro Nº4 / Nº5

2006 Objecto Cardíaco

Afectos e Outros Afectos

2007 Quidnovi

Livro de Maldições

2008 Edições Gailivro

O Remorso de Baltazar Serapião

2008 Quidnovi

São Salvador do Mundo

2008 Porto Editora

O Apocalipse dos trabalhadores

2009 Booklândia

Contos Policiais

2009 Booklândia

A Verdadeira História dos Pássaros

2009 Quidnovi

A História do Homem Calado

O Remorso de Baltazar Serapião

2009 Quidnovi

A Máquina de Fazer Espanhóis

2010 Objectiva

O Nosso Reino

 

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Mercredi 11 mai 2011 3 11 /05 /Mai /2011 09:59

Image: google.pt

 

 

Fialho de Almeida (1857-1911)

 

Cet homme, un écrivain né le 07/05/1857 dans la ville de Beja (Portugal), à qui j’ai dédié –au moins- déjà un article, m’attire

toujours par la façon dont il parle de cette terre ocre du sud

de Lisboa.

Il est possible d’aimer les auteurs du présent. Ceux qui vivent

dans les sociétés tout près de nous. Qui nous parlent à l’oreille

de manière brute ou métaphorique du monde dans lequel

nous vivons : doux ou agressif; bon ou mauvais. Et, qui parfois

nous envoient une image de nous-mêmes.

Pourtant, nous pouvons trouver très bien en lisant des auteurs

déjà vieux mais dont les œuvres nous touchent. Par leur art,

leur sensibilité. Et la façon de s’adresser à nous. Quand je lis

par Fialho de Almeida par exemple, je retourne chez moi. Pas

forcément celui avec lequel j’ai vécu mais, proche de moi, tout

au fond de moi.

Vous est-il déjà arrivé dans un moment de cafard, de vous

asseoir dans un coin du salon et de ramener vers vous, le chant

du grillon ? Rappelez-vous de Baudelaire qui aimait tant son

chant, tintant comme du cristal.

Et, ces natures mortes ou vivantes qui me tournent la tête, avec

un air de musique des mots, tel Debussy sur son œuvre !

 

« Et les jours lucides vont inonder de tonalités ces sou sols de

forêts perdues dans les fonds bucoliques de la provence. Une

virginité ferme les épaisseurs, et immaculant  les ombres des

arbres, dont la coupole, par le haut, étoile impeccablement le

bleu du ciel. » 

in : au Pays des raisins

page 37

Traduction : Rosario Duarte da CosTa

 

 

Oeuvre:

 

Contos/Contes 1881

A cidade e o vício/ La ville et le vice 1882

Os gatos/Les chats ( 6 vol.) 1882-1894)

Pasquinadas (1890)

Lisboa galante/ Lisbonne galante 1890

Vida irónica/ Vie ironique 1892

O país das uvas/ Le pays des raisins ‘1893)

Madona do Campo santo/ Madonne du Saint Champ (1896)

A esquina/ L’Angle (1903)

Livro proíbido/ Livre prohibé (1904)

 

Oeuvres Posthumes:

 

Barbear, Pentear/ Raser, Peigner (1911)

Saibam Quantos.../Sachez Combien (1912)

Estâncias d’Arte e de Saudade/ Stances d’Art et de “Saudade” (1921)

Ave Migradora/ Oiseau Migrateur (1922)

Figuras de destaque/ Figures d’importance (1923)

Actores et autores/ Acteurs et Auteurs (1925)

Vida errante/ Vie errante (1925)

Rosario Duarte da Costa

Copyright

10/05/2011

 

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Mardi 10 mai 2011 2 10 /05 /Mai /2011 09:42

  Acheter Boite Oiseau Bleu

  www.twenga.fr

 

Pássaro de Pau( Poésie pour enfants)

 

 

Pássaro de Pau

De preto pintado

Com asas com penas

Com bico encarnado

 

Pássaro de Pau

Que fazes pensar:

Tens asas tens penas

Não podes voar

 

O céu tão azul

Já é madrugada

Pássaro-tristeza

Madeira pintada

 

Quem tiver um sonho

Que o venha soltar!

Tem asas tem penas

Não pode voar.

Maria Rosa Colaço

In: “joaninha Avoa Avoa”

Lisboa 1962

 

 Pássaro de pau

www.flickr.com

 

Oiseau de Bois

 

Oiseau de bois

Peint en noir

Avec ailes et plumes

Avec le bec rouge

 

Oiseau de bois

Que fais-tu penser :

T’as des ailes et des plumes

Tu ne peux pas voler

 

Le ciel si bleu

C’est déjà l’aube

Oiseau tristesse

Bois peint

 

Qui aura un rêve

Que vienne le libérer

Il a des ailes et des plumes

Il ne peut pas voler.

Traduit par: Rosario Duarte da Costa

Copyright

09/05/2011(over-blog

 

 

Ave: Pica-pau-do-campo (Colaptes campestris)
2 min - 16 janv. 2009
dailymotion.virgilio.it

 

Ave Carrega-pau ou casaca-de-couro ...
5 min - 19 janv. 2009
mefeedia.com
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Lundi 9 mai 2011 1 09 /05 /Mai /2011 10:34

 

 

 

 

Le Poète portugais Pedro Tamen

 

 

Après avoir reçu plusieurs prix, il vient de recevoir le Prix Littéraire

de La Poésie, délivré par l’Association Portugaise des écrivains

(APE), avec le dernier livre, edité par les éditions D. Quixote,

« Le livre du cordonnier ».

Félicitations à ce grand poète, qui fait partie de ceux qui offrent

une grande richesse culturelle à sa Patrie.

Je vous ai traduit un de ses poèmes, malgré que je n’aie pas pu

joindre l’auteur. Mais, l’objectif n’est pas d’utiliser son œuvre

à son insu, si de le faire connaître auprès de vous. Bonne lecture !

 

A Luz que Vem das Pedras

 

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?
Pedro Tamen,

in : "Agora, Estar"

La lumière qui vient des pierres

 

La lumière qui vient des pierres, de l’intime de la pierre,

tu la cueilles, femme, et le distribues

si généreuse et à la fenêtre du monde.

Le sel de la mer parcourt ta langue ;

ne sont de trop en toi toutes les autres choses.

Mieux que tout, le vol des insectes,

le rythme nocturne du tournoyer des bêtes,

la clé du moment où commence  le chant

du oiseau ou de la cigale

-la main que commande cela blesse dans le même geste

la corde de ce qui en toi te fait réveiller

les yeux denses de chaque jour en un seul.

Qui est en train de sauver en cette respiration

bouche à bouche réelle avec l’univers ?

                                                                 Pedro Tamen,

in : "Agora, Estar"

Traduit par:  Rosario Duarte da Costa

Copyright

06/05/2011

 

La critique littéraire > Notes de lecture: et > Pedro Tamen

 

Pedro Tamen

Delphes Opus 12 et autres poèmes
Royaumont, 1990

(Prétexte 18/19)

 

«Fiancés l'un de l'autre, voilà le seul poème : savoir ôter la peau et le noyau

de ce cri propagé entre une mort et l'autre, et propre à maintenir en nous

fatigue et veille jusqu'à l'heure de la rature qui viendra nous tailler /.../»

Auteur d'une poésie à l'inspiration initiale chrétienne, Pedro Tamen a

ensuite évolué vers une recherche poétique qui travaille, comme dans

Delphes opus 12, à partir de différentes mythologies. Ainsi d'un voyage qu'il

fit à Delphes en 1985, il a tiré une série de poèmes qui revisitent le mythe

de cette ville antique, des dieux et des oracles qui en ont constitué l'histoire. Cependant Tamen évite l'écueil de ce genre de tremplin métaphorique qui

aurait pu consister en la reprise des interprétations multiples que ce site a pu engendrer dans l'imaginaire littéraire, et se résoudre en une sorte de lieu

commun poétique. Ce qui importe ici est d'un tout autre ordre. Il s'agit pour

Tamen de jouer sur les références ancestrales au sein d'un art poétique de

l'alliance paradoxale : alliance, comme le souligne le préfacier, de «faits réels et d'allégories, de terreurs et d'utopies, d'émois et de méditations, de désarrois et d'affirmations, de naïveté et d'ironie, de mythe et de quotidienneté» selon la

formule de l'auteur suivante : «transfigurer le chaos en petits grains de

poussière où il puisse parfois et par chance devenir visible et captable...».

Tamen s'attache en effet à ce qu'il nomme «la voix de la terre / qui ment la

vérité», et éprouve dès lors le réel à l'intérieur du langage qui l'énonce et le

compose plutôt qu'à partir de sa plus évidente mais non moins trompeuse concrêtude : «bien au-delà des mots de cette blessure, / moins dans le retour

que dans un aller / entre toujours et maintenant». La légende d'Apollon qui

draine avec elle les thèmes de l'accouplement, du désir, de la féminité tout

autant que de la violence ou du sacrifice, sert l'inspiration du poète pour

atteindre une question beaucoup plus vaste : notre relation au monde et à

l'autre, dans l'infime et, à la fois, dans l'infini : «Sein, centre, nÏud : lieu/du lien,

où le contraire / unit. Tel celui / qui se conquiert ici», «Mais c'est depuis les

failles du futur / que les eaux nous contemplent, intelligentes, / horizontales, visibles, courantes, / qui de lointains, nous abreuvent et nous baignent».

Jouant sur les temps avec une virtuosité proche des jeux surréalistes, sur une érudition de tradition toute baroque, et sur une liberté d'imagination qui

oscille entre ludisme et emphase lyrique, Tamen parvient à créer une sorte

de «prisme à l'envers où se rejoignent les rayons issus de tous les instants

passés, présents et futurs» qui dépasse la référence originelle pour créer son

propre mythe, «dans la non-rencontre / - tel un destin adjoint / à la solitude

des os, qui se répète / toutes les fois que nous voyons», «pénombre solaire

du monde / sans division possible». Conscient de la capacité d'invincibilité du silence, du poids incommensurable de l'absence, de l'évanescence des objets et

des êtres, Tamen cherche un langage qui puisse être le plus étroitement possible

lié à la vie, usant de tous les registres stylistiques et métaphoriques qu'il a en sa possession, dans l'espoir de parvenir à créer une présence, à fixer l'essence

transitoire des choses, le poème devenant peut-être enfin cet «autel plus vaste

sans mesure possible : un nom et un lieu».

Lionel Destremau

   

www.publico.pt

O escritor Pedro Tamen venceu o Grande Prémio de Poesia 2010 da

Associação Portuguesa de Escritores (APE) /CTT com a obra de poesia

 “O Livro do Sapateiro”, editado no ano passado pela D. Quixote

O galardão, no valor de cinco mil euros, foi instituído em 1989, tendo

já distinguido, entre outros, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa,

Natália Correia, Fernando Echevarria, Fernando Guimarães, Manuel

Gusmão, Gastão Cruz, Manuel António Pina, José Agostinho Baptista,

Ana Luísa Amaral e Fiama Hasse Pais Brandão.

“Não estava nada à espera disto”, disse ao PÚBLICO Pedro Tamen,

explicando que até se tinha esquecido da existência do prémio. “Foi

uma coisa em que nunca pensei.”

Segundo o comunicado da APE, o júri do prémio, constituído por Ana

Marques Gastão, Fernando J. B. Martinho e Francisco Duarte Mangas,

decidiu, por maioria, premiar Pedro Tamen.

“Eu vejo sempre o valor do prémio através do valor que atribuo ao júri

e o júri deste prémio é constituído por pessoas por quem tenho muita consideração e isso ainda enaltece mais esta vitória”, acrescenta o

escritor.

Esta é a segunda vez que Pedro Tamen é distinguido com “O Livro do Sapateiro”, depois de em Fevereiro ter vencido o prémio Correntes

d’Escritas, no valor de 20 mil euros. O que distingue esta obra? “É uma renovação temática na minha poesia. Os livros anteriores são muito

negros e este é o oposto, é uma história aberta para o mundo, para a

poesia”, conclui.

Pedro Tamen nasceu em Lisboa, em 1934 e, entre outras coisas, foi

presidente do P.E.N. Clube Português, de 1987 a 1990 e presidente da Assembleia-Geral da Associação Portuguesa de Escritores. Ao longo

dos anos, o escritor já foi distinguido com o Prémio D. Dinis (1981), o

Prémio da Crítica (1991), o Grande Prémio Inapa de Poesia (1991),

o Prémio Nicola (1997), o Prémio da Imprensa e o Prémio do PEN Clube

(2000).

Rosario Duarte da Costa

Copyright

06/05/2011

 

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Lundi 9 mai 2011 1 09 /05 /Mai /2011 10:09

Image: Google

 

image: wikipédia.org

 

 

 

GUERRA JUNQUEIRO
1878/1923

 

 

Dei a volta ao Mundo, dei a volta à vida...

Só achei enganos, decepções, pesar...

Oh! A ingénua alma tão desiludida!...

Minha velha ama, com a voz dorida,

Cantai-me cantigas de me atormentar!...

Guerra Junqueiro

In: Os Simples

 

Guerra Junqueiro, auteur portugais très influncé par Charles Baudelaire,

ou Hugo, sans oublier Proudhon et autres, fut politique, député et journaliste. Mais aussi écrivain et poète appartenant à la Nouvelle école.

On ne peut parler du Portugal et aborder sa culture d'aujourd'hui, en

oubliant tous ceux qui ont donné au Portugal le meilleur d'eux-mêmes.

Si la culture du présent est importante, elle provient des restes du passé.

C'est pourquoi, on ne peut oublier Junqueiro. Comme le France ne pourra

pas effacer Charles Baudelaire ou Rimbaud  de sa littérature.

  Rosario Duarte da Costa

Copyright

08/05/2011

 

 

 

http://alfarrabio.di.uminho.pt


Guerra Junqueiro

Abílio de Guerra Junqueiro (1850-1923) nasceu em Freixo de Espada à Cinta, formando-se em Direito na Universidade de Coimbra. Foi funcionário público e deputado, aderindo em 1891, com o Ultimatum inglês, aos ideais republicanos. Influenciado por Baudelaire, Proudhon, Victor Hugo e Michelet, iniciou uma intensa escrita poética com o fim último de, pela crítica, renovar a sociedade portuguesa. Retirou-se para uma quinta no Douro, regressando à política com a implantação da República, tendo sido nomeado Ministro de Portugal em Berna. Obras: A Morte de D. João (1874), A Musa em Férias (1879), A Velhice do Padre Eterno (1885), Finis Patriae (1890), Os Simples (1892), Pátria (1896), Oração ao Pão (1903), Oração à Luz (1904), Poesias Dispersas (1920). Em colaboração com Guilherme de Azevedo, escreveu Viagem à Roda da Parvónia.

Outras páginas sobre o autor:


OS SIMPLES (extracto)



REGRESSO AO LAR

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh, a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida.
canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago de amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas manso, muito manso...
tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!


Os Simples


PÁTRIA (extracto)



PORTUGAL

Maior do que nós, simples mortais, este gigante
foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
seu torrão dilatou, inóspito montado,
numa pátria... E que pátria! A mais formosa e linda
que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro;
hortas a rir; vergéis noivando em frutos de oiro;
trilos de rouxinóis; revoadas de andorinhas;
nos vinhedos, pombais: nos montes, ermidinhas;
gados nédios; colinas brancas olorosas;
cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas;
selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
de olivais; por nogais, frautas de pegureiros;
rios, noras gemendo, azenhas nas levadas;
eiras de sonho, grutas de génios e de fadas:
riso, abundância, amor, concórdia, Juventude:
e entre a harmonia virgiliana um povo rude,
um povo montanhês e heróico à beira-mar,
sob a graça de Deus a cantar e a lavrar!
Pátria feita lavrando e batalhando: aldeias
conchegadinhas sempre ao torreão de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
por muralhas, bastiões, barbacãs, fortalezas;
e, a dar fé, a dar vigor, a dar o alento,
grimpas de catedrais, zimbórios de convento,
campanários de igreja humilde, erguendo à luz,
num abraço infinito, os dois braços da cruz!
E ele, o herói imortal duma empresa tamanha,
em seu tuguriozinho alegre na montanha
simples vivia – paz grandiosa, augusta e mansa! -,
sob o burel o arnês, junto do arado a lança.
Ao pálido esplendor do ocaso na arribana,
di-lo-íeis, sentado à porta da choupana,
ermitão misterioso, extático vidente,
olhos no mar, a olhar sonambolicamente...
«Águas sem fim! Ondas sem fim! Que mundos novos
de estranhas plantas e animais, de estranhos povos,
ilhas verdes além... para além dessa bruma,
diademadas de aurora, embaladas de espuma!
Oh, quem fora, através de ventos e procelas,
numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas,
a demandar as ilhas de oiro fulgurantes,
onde sonham anões, onde vivem gigantes,
onde há topázios e esmeraldas a granel,
noites de Olimpo e beijos de âmbar e de mel!»
E cismava, e cismava... As nuvens eram frotas,
navegando em silêncio a paragens ignotas...
– «Ir com elas...Fugir...Fugir!...» Ûa manhã,
louco, machado em punho, a golpes de titã,
abateu, impiedoso, o roble familiar,
há mil anos guardando o colmo do seu lar.
Fez do tronco num dia uma barca veleira,
um anjo à proa, a cruz de Cristo na bandeira...
Manhã de heróis... levantou ferro... e, visionário,
sobre as águas de Deus foi cumprir seu fadário.
Multidões acudindo ululavam de espanto.
Velhos de barbas centenárias, rosto em pranto,
braços hirtos de dor, chamavam-no... Jamais!
Não voltaria mais! Oh! Jamais! Nunca mais!
E a barquinha, galgando a vastidão imensa,
ia como encantada e levada suspensa
para a quimera astral, a músicas de Orfeus:
o seu rumo era a luz; seu piloto era Deus!
Anos depois, volvia à mesma praia enfim
uma galera de oiro e ébano e marfim,
atulhando, a estoirar, o profundo porão
diamantes de Golconda e rubins de Ceilão!

Pátria


 

POESIAS DISPERSAS (extracto)



ADORAÇÃO

Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão
Em mim não é amor; filha, é adoração!
Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.
Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,
E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa
Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça
do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante
Eu sinto – virgem linda, inefável, radiante,
Envolta num clarão balsâmico da lua,
A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua!
Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa:
Além de bela és santa; além de estrela és rosa.
Bendito seja o deus, bendita a Providência
Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,
O deus que te criou, anjo, para eu te amar,
E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...

Poesias Dispersas



CARTA A F.

És tu quem me conduz, és tu quem me alumia,
Para mim não desponta a aurora, não é dia,
Se não vejo os dois sóis azuis do teu olhar.
Deixei-te há pouco mais dum mês, – mês secular
E nessa noite imensa, ah, digo-te a verdade,
Iluminou-me sempre o luar da saudade.
E nesses montes nus por onde eu tenho andado,
Trágicos vagalhões dum mar petrificado,
Sempre adiante de mim dentre a aridez selvagem,
Vi como um lírio branco erguer-se a tua imagem.
Nunca te abandonei! Nunca me abandonaste!
És o sol e eu a sombra. És a flor e eu a haste.
Na hora em que parti meu coração deixei-o
Na urna virginal desse divino seio,
E o teu sinto-o eu aqui a bater de mansinho
Dentro em meu peito, como uma rola em seu ninho!

Poesias Dispersas


Guerra Junqueiro EM VIAGEM

Desde aquela dor tamanha
Do momento em que parti
Um só prazer me acompanha,
Filha, o de pensar em ti:

Por sobre a negra paisagem
Do meu ermo coração
O luar branco da tua imagem
Veste um benigno clarão.

A tarde, no azul celeste,
Há uma estrela esmorecida,
Que é o beijo que tu me deste
Na hora da despedida.

Beijo tão longo e dolente,
Tão longo e cortado de ais,
Que o meu coração pressente
Que não te torno a ver mais.

Conto no céu estrelado
Lágrimas de oiro sem fim:
É o pranto que tens chorado,
De dia e noite, por mim...

Quando me deito na cama
E vou quase adormecido,
Oiço a tua voz que me chama,
Num suplicante gemido.

Num gemido tão suave,
Tão triste na noite escura,
Que é como uma queixa d'ave
Presa numa sepultura!...

Em sonho, às vezes, meu Deus,
Cuido que vou expirar,
Sem levar nos olhos meus
O teu derradeiro olhar.

E sem extremo conforto
Que eu ness'hora quero ter:
Beijar a fronte do morto
Aquela que o fez viver.

E é esta ideia constante,
É esta ideia sombria
Que me eclipsa, a todo o instante
O sol da alma, a alegria.

Partir!... Partir-se a cadeia
Da vida, Senhor, senhor!
Quando o azul doirado arqueia
Bênçãos ao meu sonho em flor!...

Morrer amanhã talvez!
Morrer!... Endoideço, quando
Me lembra a tua viuvez,
Entre dois berços chorando!..

Morrer, entregar à treva,
Aos vermes e às podridões
O meu coração, que leva
Dentro mais três corações!

É duro, é cruel... No entanto,
Antes da hora final,
Eu quero dizer-te o quanto
Te amei, lírio virginal!

Eu vinha de longe, exangue,
A alma despedaçada,
deixando um rastro de sangue
Nas urzes da minha estrada.

Brancas ilusões mimosas,
Vastas quimeras febris,
Abelhas doirando rosas,
Águias c'roando alcantis.

Oh, desse mundo risonho
Havia apenas ficando
A bruma vaga dum sonho
Que a gente sonha acordado...

.......................
.......................

Nessa tremenda ansiedade
É que tu verteste, flor,
A tua imensa piedade
Na minha infinita dor!...

Eu era a sombra funesta
E tu o clarão doirado;
Juntámo-nos, que é que resta?
Um céu de Maio estrelado.

Quando vais serena e calma,
Linda, inefável, como és,
Vou pondo sempre a minha alma
No sítio onde pões os pés.

Corre o mundo, (o mundo é estreito)
Podes mil mundos correr,
Que hás-de calcar o meu peito
sempre por ti a bater.

......................
......................

Meus sofrimentos partilhas
E meus regozijos vãos:
Minhas dores são tuas filhas;
Meus cuidados teus irmãos.

Não Há dif'rença nenhuma
Em nossas almas, eu creio
Que foram feitas só duma
Que Deus dividiu ao meio.

Por isso penso há dois meses,
Desde a hora em que parti,
Que morreria cem vezes
Morrendo longe de ti:

Mas ai! se assim fosse, quando
Me sepultassem, então
Estalariam chorando
As tábuas do meu caixão.

E do meu peito gelado,
Na terra do cemitério,
Brotaria ensanguentado
Um lírio roxo, funéreo.

Um lírio estranho, imprevisto,
Feito pela minha dor
Das cinco chagas de Cristo
Reunidas numa só flor...

E a estrela, d'alva inocente,
Cheia de dó tombaria,
Lagrimosissimamente
Na urna da Flor sombria!...

Poesias Dispersas

www.wikipedia.org

 

Lista de Obras

  • Viagem À Roda Da Parvónia
  • A Morte De D. João (1874)
  • Contos para a Infância (1875) (eBook)
  • A Musa Em Férias (1879)
  • A velhice do padre eterno (1885) (eBook)
  • Finis Patriae (1890)
  • Os Simples (1892) (eBook)
  • Oração Ao Pão (1903)
  • Oração À Luz (1904)
  • Gritos da Alma (1912)
  • Pátria (1915) (eBook)
  • Poesias Dispersas (1920)
  • Duas Paginas Dos Quatorze Annos (eBook)
  • O Melro (eBook)

[editar] Cronologia

  • 1850: Nasce no lugar de Ligares, Freixo de Espada à Cinta;
  • 1864: «Duas páginas dos quatorze anos»;
  • 1866: Frequenta o curso de Teologia na Universidade de Coimbra;
  • 1867: «Vozes Sem Eco»;
  • 1868: «Baptismo de Amor». Matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra;
  • 1873: «Espanha Livre». Colaboração de Guerra Junqueiro em «A Folha» de João Penha. É bacharel em Direito;
  • 1874: «A Morte de D. João»;
  • 1875: Primeiro número de «A Lanterna Mágica» em que colabora;
  • 1878: É nomeado Secretário Geral do Governo Civil em Angra do Heroísmo;
  • 1879: «A Musa em Férias» e «O Melro». Adere ao Partido Progressista. É transferido de Angra do Heroísmo para Viana do Castelo e eleito para a Câmara dos Deputados;
  • 1880: Casa a 10 de Fevereiro com Filomena Augusta da Silva Neves. A 11 de Novembro nasce a filha Maria Isabel;
  • 1881: Nasce a filha Júlia. Interditada por demência vem a ser internada no Porto;
  • 1885: «A Velhice do Padre Eterno». Criação do movimento «Vida Nova» do qual Guerra Junqueiro é simpatizante;
  • 1887: Segunda viagem de Guerra Junqueiro a Paris;
  • 1888: Constitui-se o grupo «Vencidos da Vida». «A Legítima»;
  • 1889: Falece a sua esposa, Filomena Augusta Neves, facto que lamentará até ao fim dos seus dias.
  • 1890: «Finis Patriae». Guerra Junqueiro é eleito deputado pelo círculo de Quelimane;
  • 1895: Vende a maior parte das colecções artísticas que acumulara;
  • 1896: «A Pátria». Parte para Paris;
  • 1902: «Oração ao Pão»;
  • 1903: Reside em Vila do Conde;
  • 1904: «Oração à Luz»;
  • 1905: Visita a Academia Politécnica do Porto e instala-se nesta cidade;
  • 1908: É candidato do Partido Republicano pelo Porto;
  • 1910: É nomeado Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário da República Portuguesa junto da Confederação Suíça, em Berna;
  • 1911: Homenagem a Guerra Junqueiro no Porto;
  • 1914: Exonera-se das funções de Ministro Plenipotenciário;
  • 1920: «Prosas Dispersas»;
  • 1923: Morre a 7 de Julho em Lisboa.

 

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Lundi 9 mai 2011 1 09 /05 /Mai /2011 09:56

 

 

 

 

 

Manuel da Fonseca

Quand on aime un auteur, on ne l’aime pas forcément parce

qu’il est de tel ou tel pays, ou de telle ou telle nationalité.

On l’aime, parce qu’il nous transmet quelque chose que nous

aimons dans son œuvre.

Mais, nous avons aussi nos préférences parfois, liées aux lieux

où nous sommes nés, ces territoires de l’enfance qui nous ont

portés dans les premières années de nos vies. Ainsi par exemple

je me trouve bien en lisant des écrivains du sud du Portugal

c'est-à-dire d’Alentejo (au-delà du Tage). Maman m’en parlait,

les professeurs me les ont fait approfondir et, la terre m’a fait

découvrir le poids de tous leurs mots.

Et, je garde chez moi ces œuvres, comme des grands trésors.

Vous comprenez? -Par exemple, lorsque je suis affamée ou

assoiffée, je prends leur nourriture et leur jus jusqu’à pouvoir

me trouver bien en moi.

C’est par exemple Manuel da Fonseca. Cet homme, artisan de

l’écrit, peint toute une région, si grande que l’on ne voit pas

sa fin, si silencieuse que tout le bruit s’entend ; il dessine les

bourgs, les villages et les villes, dont les habitants sont simples

et si particuliers. Des gens du sud, de la terre sèche, du tout

et du rien.

Ainsi Manuel da Fonseca nous promène, non pas dans un

monde irréel, si dans une crue réalité, où beaucoup passent

du sud vers le nord ou vice-versa, sans même regarder.                        

 

Œuvre :

 

- Rosa dos ventos- Rose des vents (Poèmes 1940)

- Planície- Plaine (Poèmes 1942)

- Aldeia Nova- Nouveau Village (Contes 1942)

- Cerromaior- La plus grande colline (Roman 1943)

- O fogo e as cinzas- Le Feu et les cendres (Contes 1951)

- Seara ao vento- Moisson au vent (Roman 1958)

- Poemas completos- 1958

- Um anjo no trapézio- Un Ange sur le trapèze (Contes 1968)

- Tempo de solidão- Temps de solitude (Contes 1973)

Rosario Duarte da Costa

Copyright

07/05/2011

 

Article extrait du site: Escola de

Morreu um neo-realista, um escritor que recusava esse rótulo de estilo - e, com ele, a memória duma época de miséria e ousadias, de tertúlias e repressão. Ficaram livros, depoimentos, as crónicas nos jornais, e a entrevista que hoje publicamos, a última que deu, no poiso duma das suas últimas tertúlias

Nuno Lopes

MANUEL DA FONSECA

"Escrevo porque sou do contra"

"Amigo/ antes da morte vir/ nasce de vez para a vida."
 

                                         foto de António Ferreira

    Ao princípio da madrugada do passado dia 11 de Março falecia Manuel da Fonseca. Contava 81 anos de idade e mais de meio século de actividade literária. Esta é provavelmente a sua última entrevista, dada no seu paradeiro habitual, o Café Expresso, ao largo da Misericórdia, em Lisboa - primeira de uma série, integrava-se num projecto que procuraria traçar o perfil não só do escritor como do cidadão.
    Manuel da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém e começou por escrever no jornal local: «Há sempre aquela ‘gavetazinha’ que um rapaz tem na escrevaninha e que sem o saber vai lá uma pessoa de família, uma tia... e foi assim que começaram a aparecer os meus primeiros escritos em alguns jornais. Eu escrevo, não desde 38, mas logo no início de 30, as pessoas é que não sabem e não me cabe informá-las.»

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

EXPRESSO

- O Manuel da Fonseca é considerado um precursor do neo-realismo em Portugal. Há um tempo atrás afirmou que não era tanto assim, neo-realismo era uma palavra que nem lhe passava pela ideia...

MANUEL DA FONSECA

- E assim é! Sinto-me mal em relação a isso. Eu nem sequer disse que era neo-realista. Foram os críticos que acharam que eu era neo-realista, eu não disse nada. No fundo, era um indivíduo que lá tinha a minha ideia sobre o que seria - isso era antes uma palavra para defesa da vida e à defesa da Censura. Foi uma palavra que o Joaquim Namorado arranjou para fugir à Censura.

EXP.

- Se tivesse de lhe dar um nome, qual seria?

M.F.

- Talvez dissesse antes uma literatura de realismo dialéctico, mas não sei.

HERBERTO HELDER

- (intervindo da mesa ao lado, que o Café Expresso é tertúlia dos clientes de sempre) Um realismo lírico...

M.F.

- Lírica é toda a nossa literatura, até a mais dramática. A gente começa a escrever porque são aquelas coisas que acontecem perante o ambiente em que nós nascemos. Quando nascemos somos contra, é próprio de quem nasce estar contra os que cá estão. Toda a arte está contra. Escrevo porque estou contra!
Comecei a escrever porque de tudo o que já experimentara era o que melhor fazia. Escrevi em vários jornais - ganhava bem, cerca de 400$00 por crónica, e escrevia duas por semana. E certo que no República ganhava menos, mas eles também tinham dificuldades e não era só isso que contava. Acho que o escritor deve ser um profissional e como tal viver da economia própria do produto que faz, e isso, é claro, também obriga a determinadas coisas...

EXP.

- Como por exemplo?

M.F.

- A publicidade, as entrevistas, os comentários...

EXP.

- Isso não será fazer parte de uma engrenagem em que tempos atrás se recusava a participar?

M.F.

- E não participo. Eu não sei de nada. Isso é com o editor, ele é que sabe. Os meus livros por exemplo, continuam a vender. Não se diz nada, não se faz publicidade, mas eles vendem!

EXP.

- E quanto a uns livros que estão prometidos?

M.F.

- Se começo a escrever, nunca mais paro. E dia e noite e não tenho sossego. Por isso estou parado. Também não preciso. Arrumei uns papéis e logo se verá. De facto, tenho um que começaria com o fim da 1 Guerra Mundial e depois viria até ao 25 de Abril. Seriam três volumes, mas não sei... E depois, é como lhe digo, não ando tão necessitado como isso. Talvez noutro tempo.

EXP.

- Trata-se de um romance Histórico?

M.F.

- O romance histórico é um romance menor; é uma pequena história, e esta é própria do indivíduo e não do todo. Não é criação.

EXP.

- E o sucesso do Memorial do Convento?

M.F.

- Tem uma coisa rara que era muito comum no século XIX e que o Saramago faz muito bem, a ironia. Mas não deixa de ser uma pequena história.

EXP.

- Então a literatura deve apenas reflectir o presente?

M.F.

- Claro está! Não há futurismos na literatura. O único homem que falou de futuro, e no sentido técnico, é o Júlio Verne. De resto, não há futuro, o presente já é futuro.

EXP.

- Veio para Lisboa muito cedo. Como vê a evolução da cidade?

M.F.

- Lisboa é muito bonita e eu gosto muito: é uma aldeia. Veja por exemplo a Estefânia. Aquele bairrozinho para onde vim morar quando vim do Alentejo está agora irreconhecível..; e ainda bem. Lisboa está diferente e para melhor, mas ainda continua a ser aquela Lisboa que me levou a gostar ainda mais do Alentejo, do meu Alentejo. Tudo é ao contrário desse Alentejo, e por isso eu aprendi a gostar ainda mais dele. As pessoas zaragatam, fazem-nos ma cara, mas são encantadoras. Lá fora, há tanta gente nas ruas, e não acontece nada. Aqui basta darmos dois passos para encontrarmos uma discussão, uma exaltação, mas isso é vida, é cor.

EXP. -

É

fado...?

M.F.

- Gosto de tudo que vem do povo. Pode ter nascido nas vielas ou até ter raízes africanas, não se sabe, mas é do povo e eu gosto. Temos aquela Amália que é um caso sério, uma grande senhora. E tínhamos o Alfredo Marceneiro. Cheguei a ser amigo do Marceneiro, fomos presos juntos e estive muitas vezes na sua casa.

EXP-...

M.F.

- Havia ali na Rua Morais Soares um café de camareiras, a Rosa Branca: umas pequenas que faziam uns brindes e depois nós comprávamos. Conversava-se e ouvia-se o fado. As duas por três, houve lá qualquer coisita entre dois pretendentes e uma camareira e, zás pás trás, pancadaria geral - eu fiquei na mesma cela que o Alfredo. Passei a ir com ele aos fados. Certa vez fomos ouvir a Amália ali para o Bairro Alto, ia também connosco o Carlos de Oliveira, e o Alfredo puxou de debaixo da mesa um álbum onde guardava crónicas minhas... Outra vez, também nos fados, vimos um homem já velhote, baixinho, assim como que apagado, não se fazendo anunciar, e de repente o povo apercebe-se da sua presença, levanta-se e aplaude-o. Era o Teixeira de Pascoaes!

EXP. - O

fado foi também uma forma de aproximar o povo dos considerados grandes poetas...

M.F.

- Então não foi? Teve um papel muito importante. A Amália, e depois outros. Veja por exemplo esse grande rapaz, o Ary, o Ary dos Santos, as coisas bonitas que fez. E o Carlos do Carmo? E um rapaz que também fez isso, aquelas voltas, é magnifico!

EXP. -

A memória é uma constante no que diz.

M.F.

- No viver, sim. Está ali o Herberto Helder que é um dos grandes poetas, e meu amigo. Aqui estamos todos reunidos, bebemos qualquer coisa, e conversamos como iguais, não há cá essas coisas de «eu sou mais importante que tu portanto cala-te».

EXP.

- Definiria assim o seu estilo de viver...

M.F.

- Não tenho a noção do tempo. Quero é estar à volta de uma mesa com uns amigos. Uma vida simples e pura. Ando muito a pé, tenho amigos estranhos, converso aqui e ali, oiço muito, e lá nos encontramos nas tabernas.

EXP. - E como se movimenta nos meios literários?

 

 

 

 

M.F.

- Muito mal. É uma jogada fina. Dizes bem de mim que eu digo bem de ti, nós é que somos bons. E um mundo com muita hipocrisia. Eu não frequento os meios literários, sou muito malcriado porque digo logo o que sinto. Aliás nisso sou como o Lobo Antunes. Hoje há uma intelectualidade balofa, uma vaidade de calça de ganga: grandes parangonas nos jornais deste e daquele escritor, mas tudo é efémero, nada vai ficar - como a rosa daquele poeta francês. Veja por exemplo o Fernando Pessoa. Eu conheci o Manuel Martins da Nóbrega, que foi patrão do Fernando Pessoa. Costumava dizer às vezes, quando ia ao escritório e via a máquina de escrever em determinado lugar: «O meu Fernando esteve cá a trabalhar.» Veja esta singeleza de ter convivido com um génio e a forma simples e grande ao mesmo tempo ao dizer «o meu Fernando», é muito bonito, quase comovedor até...

EXP.

- E em relação aos críticos?

M.F.

- São uns senhores muito altos que não sabem do que falam, põem um adjectivo seguido de outro com um ponto de exclamação a meio, e nós não percebemos nada. O melhor é ler o livro!

EXP.

- E com a política?

M.F.

- A política é trágica e já não me interessa no sentido que me interessou. Mas continuo a ir ao Alentejo e a falar com os camponeses. E continuo no PCP, embora em relação ao actual momento não disponha de dados para estar aqui a falar. As circunstâncias do mundo mudaram-se e a política mudou-se. Mas devo-lhe dizer que também não é como os jornais dizem. Mas enfim, eu sou do contra na política.
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