Auteure: Isabel Cruz"olhares.com"
Linhagens!
Podia pertencer a uma família monárquica, ser filha de uma
raínha,
casar-me com um príncipe esvelto e, viver num castelo
qualquer.
Podía!
Mas, a minha mãe não tinha título, vivia numa casa amarela
tapada
por um céu azul e, de real, ela só tinha os olhos esverdeados
com
bolinhas castanhas...
Era, no entanto a minha raínha. Sempre atenta aos filhos e, fazia
milagres para eu andar vestida como uma princesa!
Por isso, nunca me faltaram nem jóias, nem chapéus floridos.
E,
mesmo os meus saiotes e bibes, eram bordados!
Contudo, conheci monárquicos. Condes e condessas. Por
exemplo,
também frequentava a então conhecida Zimna Cabral,
Marquesa
de Valverde que, se tornou titular do nome, por causa do seu
marido!
Naquele tempo, era na Sociedade de Geografia que esta
encontrava
a sua comitiva de condes e viscondes, também outros como os
comendadores que, naquela altura, hasteavam o seu título, como se hasteja uma bandeira.
E, no dia em que eu os conheci-ali mesmo na S.G.P.-
acompanhada
pelo poeta Moçambicano Ruy Burity da Silva, a primeira
pergunta
que me fizéram, foi perguntar qual era a minha linhagem!
Mas, comunicativa como sou, respondi a verdade, dizendo que
o
meu castelo era o Alentejo e, a Assembleia toda começou a
rir.
Foi assim, que acabei por participar nas célebres reuniões
literárias
“Cenáculo Literário daquesa de Valverde”, que era então na Rua
Castilho em Lisboa. E, acreditem, que me recordo vagamente de um
poema por ela declamado “Vem da água/vem da nora/de muito
longe nascida/”...
Após o 25 de Abril, esta senhora manteve alguma correspondência
comigo, embora a sua problemaática não fôsse a minha, esta lá se
ía queixando de encarecimento da vida e, do custo das
empregadas
em Portugal, embora não tenha mostrado qualquer contrariedade devida
à revolução!
Durante as suas férias em Santa Combadão, ela aproveitava para
epistolografar. Possúo daqueles postais do CTT
que ela me
enviou, algumas cartas e, vários convites.
Foi Zimna Cabral que me havia apresentado a escritora “Maria Manuela
Montenegro“, que bem conheci e, frequentei naquela
altura. Soube uns anos mais tarde já
em Lyon,
que o seu marido
tinha feito
o serviço militar com o Cônsul Geral de Portugal Benito Garcia –hoje falecido! Li, não sei onde, que ela escreveu,
“ O batuque
das mulheres negras”- que não li.
Assim andou
a minha vida, entre monárquicos e, plebeus. Mas,
Sempre
virada para a humanidade!
Rosario Duarte da Costa
Copyright
06/04/2011
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