images:mapav.com
POESIA DE MANUEL DA FONSECA
POESIE DE MANUEL DA FONSECA
J’ai une tendresse particulière
pour ce poète, appellé Manuel
da
Fonseca…
J’ai en moi, un fil qui me
traverse plein de ces choses si simples
et au même temps si profondes
qui, me font penser, rêver et,
revivre…
à Manuel da Fonseca…mon frère poète !
O poeta tem olhos de água para reflectirem
as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo
das coisas que os sábios desconhecem
Em são olhar estão as distâncias sem mistério
que há entre as estrelas
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos
bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios
esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos
Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam
os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas
onde se falam todas as línguas da Terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao
lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os
gelos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálperas sobre o rosto das
noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados
maravilhando como contos de fada à hora da
infância
e os trapos negros das mulheres dos
pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas prò mar
amaldiçoando a tempestade
-todas as cores, todas as formas do mundo se
agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de
um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens
de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o
brilho nos olhos do poeta
que escreve poema de revolta com tinta de sol
na noite de angústia que pesa no mundo
Rosario
Duarte da Costa
Copyright
18/11/2011
www.dglb.pt
Manuel da Fonseca
[Santiago do Cacém, 1911 - Lisboa, 1993]
Fez a instrução primária em Santiago, no
meio de uma família oriunda de Castro Verde e do Cercal do Alentejo. Em Lisboa, frequentou o Colégio Vasco da Gama, o Liceu Camões, a Escola Lusitânia e, ainda, a Escola de Belas-Artes. Nas
férias, regressava a Santiago (Cerromaior, nas suas obras), a casa dos avós, ou, posteriormente, de uma tia.
Exerceu actividades muito díspares, quer na área do comércio, quer na da indústria, tendo ainda trabalhado em jornais e revistas e numa agência de publicidade. «Em Cerromaior nasci. / Depois,
quando as forças deram / para andar, desci ao largo. / Depois, tomei os caminhos / que havia e mais outros que / depois desses eu sabia.»
Se estivermos atentos aos seus livros, saberemos muito mais do A., pois a sua obra é fortemente autobiográfica, já que as personagens que recriou (delineadas por forças internas) e a realidade,
nela descrita, estão intimamente ligadas a experiências vividas e a uma unidade psicológica extremamente coesa. «Uma vez lançado, a realidade e a invenção, mascaradas, jogam às escondidas comigo
– nunca sei ao certo, em cada momento, qual delas preside ao que escrevo», disse em entrevista.
Respirando e vivendo as memórias do Alentejo, este é, na verdade, parte de um todo, e Santiago é o espaço do conhecimento e tempo da revelação, memórias indeléveis do seu primeiro mundo. A
infância, a adolescência e o mítico Largo serão condicionantes da sua criatividade, observáveis em qualquer dos seus livros; e a ideia de se assumir cumulativamente como vagabundo é tão normal
que a repete, tanto na sua poesia ou ficção como em prefácios ou entrevistas, deixando-nos assim uma imagem repassada por uma grande dor inicial: a de uma casa que verdadeiramente nunca teve.
«Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas... Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo... O Largo é o lugar da igualdade (mas, depois)... a
vida mudou-se para o outro lado da vila.»
Antigamente: a infância, a alegria, a paixão, o equilíbrio e a comunhão vivida no Alentejo, tudo foi substituído pela visão do adulto, pela dor, cinzas e solidão encontradas na cidade. Os pontos
de vista do escritor, que evoca o antes, donde o Largo e o Alentejo representarem as raízes embebidas no mítico e na idealização, e a presentificação dorida do agora, onde se observa a
omnipresença dos olhos-ouvidos, «ouvidos para ouvir / e olhos para ver», indicar-nos-ão as duas perspectivas adoptadas pelo poeta e ficcionista, numa visão sempre terna e generosa, mas que
reflectem bem a sua personalidade.
É pois natural que um tom confessional e coloquial, vivo, ressalte da sua escrita; que o narrador seja também personagem; e que as primeiras figuras, líricas e heróicas, caracterizadas por um
excesso de vida e de paixão, se tenham transformado em figuras nostálgicas, exiladas, solitárias e inadaptadas à realidade em que vivem: «André Juliano, meu amigo de infância, como nós mudámos!»
Um «ano de grande fome» foi o momento em que perdeu o paraíso e lhe definiu a passagem para outros espaços. É o «forno» que se desmorona, em Seara de Vento, é a mudança operada em
Adriano, em Cerromaior.
A sensualidade, a expressão espontânea (porque mais interior e verdadeira), a organização plástica, a ductilidade semântica e a sua originalidade esbatem-se, nas últimas obras, apesar de nelas
guardar o essencial, integrando e coordenando as multissignificações simbólicas em que o A. sempre foi mestre, porque a criação poética é isso mesmo, intimamente ligada a um falar interior, aos
objectos que navegam no nosso corpo secreto. Por isso, «tudo o que há no novelista preexistiu, em embrião, no poeta», e será difícil estudar a sua ficção ou a sua poesia como produções
autónomas.
«A observação do homem e dos seus problemas – esclarece em entrevista – tem de ser contada de um modo pessoalíssimo». Ora é este pressuposto que o impede de cair em «clichés» e em empolgamentos
ideológicos. A perspectiva neo-realista, na sua obra, emerge cândida e com naturalidade pelo facto de descrever camponeses e patrões naqueles espaços alentejanos, associada à grande capacidade de
ternura e compreensão dos seus semelhantes. Donde, ao escrever «Aquela raça de lavradores antigos acabou-se» não o faça contra o próprio lavrador, mas contra as adversidades e alterações que
acabaram por deteriorar o ancestral equilíbrio vivido, no Largo, pelo homem alentejano, apaixonado e violento, porém compassivo e companheiro.
São essas transformações que o escritor acabou por retratar através dos olhos e da sensibilidade do menino ou rapaz que se defronta e abre aos problemas da sua região natal, repostas pelo adulto
que as observa como factos que o ultrapassam mas que não explicará através da perspectiva da luta de classes. «Sou barco de vela e remo / sou vagabundo do mar... não tenho rota marcada.» Desta
forma, foram os seus dramas e lutas interiores que lhe realizaram a obra, espelhando o conflito entre o mundo mítico, primeiro, e a realidade social posterior, injusta, sim, mas para a qual não
propôs qualquer solução, já que foi céptico quanto ao advento de um mundo melhor. Trata-se, na verdade, de uma ideologia muito pessoal, que olha o passado afectivamente, como se o preferisse, o
que não impede que a sua obra se inscreva no espírito e movimento neo-realista, ainda que de forma mais universal, ao colocar o indivíduo num centro e num plano diferentes daqueles para que
aponta a realização colectiva.
in Dicionário Cronológico de Autores
Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997
Derniers Commentaires